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Política para quem quer enxergar
Por Alexandre Maron — Quarta, 17 de março de 2004
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É engraçado pensar que as pessoas tentam escapar das agruras do dia na ficção, na ilusão de que não vão ter ali que lidar com assuntos sérios. Mas a verdade é que eles estão lá, sim. Diluídos nas opções dos personagens, em suas formas de pensar.
Eu li uns anos atrás, e cheguei a escrever sobre, o trabalho acadêmico do professor de história Marcelo Correia, que falava sobre a forma como o Super-Homem (Superman, atualmente) e o Batman iam oscilando suas posturas políticas de acordo com as mudanças nas correntes das opiniões políticas de cada momento. Em tempos conservadores, iam oscilando para a direita. Quando o ar refrescava um pouquinho, davam uma guinada liberal. Em essência, por mais despolitizada que seja a audiência dessas obras da cultura pop, as posições políticas, camufladas ou não, estão em todos os lugares.
A ótima idéia de Correia foca nos dois super-heróis e nos quadrinhos, mas está metaforicamente falando de toda a indústria. Imagine um personagem como o Capitão América, da Marvel. Foi criado como peça de propaganda na Segunda Guerra. Ressurgiu nos anos 60 como um homem antiquado e fora de seu tempo, porque fora congelado por quase 20 anos. Nos anos 60, pegou uma motocicleta e saiu pelas estradas americanas, com jeitão de easy rider. Nos anos 90, chegou a perder seu uniforme e lutar pela justiça e liberdade usando uma roupa preta, sendo bancado por um prêmio da loteria e um clube de amigos. O herói foi sempre um ícone conservador, mas foi oscilando para todas as nuances do espectro ideológico possíveis à direita.
O que dizer dos seriados, centenas deles, que vendiam a idéia de que os heróis enfrentam terroristas, traficantes, ladrões, assassinos. A cada virada política, a etnia da vez incorpora esses demônios. Eles são árabes, latinos, árabes, alemães, árabes, japoneses, árabes e, bom, árabes.
A década de 90 foi um momento curioso dessa trajetória. Sem inimigos claros depois da queda do muro de Berlim, os americanos partiram para uma jornada diferente. Em séries como Arquivo X, o inimigo era o vizinho, o governo, a conspiração, os extraterrestres. Em programas como Buffy - A Caça-Vampiros, os demônios eram personificações dos medos humanos: crescer, ser aceito, arrumar emprego, ter amigos, encontrar o amor. Nas comédias, o cinismo de quem quer fingir que sabe tudo e que não se surpreende mais com nada nesta vida. Não foi à tôa que Seinfeld fez tanto sucesso e virou a série desta geração.
24 Horas é um exemplo perfeito de como a ideologia está inserida profundamente no DNA de um produto de entretenimento. Ali, o herói faz o que for necessário para realizar seus objetivos. Estes são nobilíssimos para ele e, claro, para a audiência que acompanha o que ele vive e vê. Assim, Jack vai matando pessoas com tiros impiedosos, quebrando leis e tudo parece fazer sentido dentro da lógica dele. E o espectador vai concordando silenciosamente porque consegue entender perfeitamente as motivações do herói. Como resultado, o herói executou friamente pelos menos dois de seus inimigos se aproveitando de momentos nos quais eles estavam indefesos. A mensagem é clara: não mexa com a minha família ou com as pessoas que são importantes pra mim ou eu mato você. Vindo do país que saiu invadindo países estrangeiros depois de sofrer um ataque terrorista devastador, a mensagem ganha um sentido mais profundo.
Mas nem é preciso ir tão longe. Uma sitcom ou um drama como Touched By An Angel não deixam de ser produtos cheios de ideologia. No primeiro caso, a pregação da unidade familiar e da família convencional em contraposição a maluquices como uniões com homossexuais, por exemplo, são posturas implícitas. Em uma sitcom com personagens negros, o que se busca é a reafirmação de um conjunto de valores. Tanto quanto em qualquer outro caso.
Ou ainda a mania da ficção mainstream dos Estados Unidos de punir culpados. Quem faz sexo, rouba ou mata sem que exista alguma justificativa muito forte, devidamente mostrada com destaque na história, para que não haja dúvida, tem que ser punido de alguma forma. Não é à tôa que personagens mais polêmicos, como prostitutas, por exemplo, quando se apaixonam, acabam revelando que foram colocadas naquela vida por algum motivo muito louvável.
Nos filmes do ótimo Jorge Furtado, tanto em Houve Uma Vez Dois Verões quanto em O Homem que Copiava, os heróis são amorais e, não importa quantos erros ou crimes cometam, têm direito a um final feliz.
Nas novelas brasileiras, a trajetória também é de sanfona ideológica. Há uma liberalização eventual, mas o discurso é em geral conservador, com direito a lições de moral para que a massa se comporte bem, arrume empregos e seja honesta, ou seja, deixe a elite econômica e social em paz. Um momento revolucinário, e de exceção total, foi quando um dos vilões de Vale-Tudo, novela de Gilberto Braga, fugiu do Brasil em um avião e deu uma banana para o país. Um vilão se dar bem em uma novela era, e é, algo muito raro.
Mas não há nada mais ideologizado do que o cinema americano. Ali, os heróis quebram leis sem nenhum problema e são glorificados por isso. Os inimigos da vez são demonizados e ridicularizados sem nenhum problema. Um bom exemplo é o filme Bad Boys 2, que traz frases como "a segurança dos Estados Unidos está tão eficiente que não estamos conseguindo fazer nossos golpes" saída da boca de um traficante que financia o ditador Fidel Castro (!?).
Peixe Grande, de Tim Burton, se colocado ao lado de Invasões Bárbaras, filme canadense que foi sensação nos circuitos dos festivais, funciona como uma Pedra de Rosetta dos signos caros aos americanos. Em Invasões e Peixe, o filho cheio de diferenças em relação ao pai volta para casa para vê-lo moribundo. A maneira como os dois filmes partem dessa mesma premissa é que vai fazer toda a diferença do mundo e mostrar como pensam dois povos que estão tão próximos geograficamente.
Em Invasões, o filho é um jovem corretor de ações endinheirado, que resolve bancar o tratamento do pai que está morrendo de câncer e dar-lhe o máximo de conforto em seus últimos dias. Enquanto assistimos à decadência do velho, vamos vendo a ascensão do filho, que despeja dinheiro para resolver todos os problemas. Ele suborna fiscais, sindicalistas, funcionários públicos e consegue privilégios. No fim, consegue até uma enfermeira que prepara o coquetel que levará seu velho à morte. Essa cena, aliás, é uma das mais fortes do filme, mostrando pai e filho de mãos dadas, no momento da morte do velho.
Em Peixe Grande, é o pai que é famoso e poderoso, e o filho se sente
intimidado pelo legado do pai. Assim, o jovem renega os valores do pai, que é um grande mentiroso. Até o fim do filme, ele será dobrado pelo seu genitor e se verá convertido aos ideais tradicionais.
Está caracterizada a diferença crucial entre os modos de pensamento. Em Invasões, o filho destrói o sistema de valores do pai e corrompe todos ao seu redor com o poder do dinheiro. Em Peixe, o filho acaba seguindo os passos do pai mentiroso (uma metáfora da paixão americana pelo show, pelo lúdico e pelas aparências) e abraça seus valores, contando suas histórias fantasiosas para seus filhos. No fim, o pai moribundo (os ideais sonhadores do socialismo que o acompanharam por toda a vida) morre de mãos dadas com o filho (que representa o capitalismo pragmático). E esse filho, sem nunca sujar as mãos, foi o artífice da morte do pai.
Ou seja, mesmo nos mais singelos melodramas há ideais profundos em jogo. Fique ligado.
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Aproveite a estréia de Tru Calling, na Fox e dê uma lida nesta coluna de quando a série estreou nos Estados Unidos.
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