Séries Japonesas - Parte I

Por Douglas Donin — Terça, 16 de março de 2004

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Vamos supor que você esteja descansando tranquilamente em uma praia japonesa. Entre um gole e outro de coco gelado, nota uma agitação na superfície do mar. As pessoas param para observar, curiosas, mas você sabe que algo está errado. De repente, confirmando suas suspeitas, um gigantesco monstro borrachudo e com zíper nas costas, de centenas de metros de altura, levanta-se a poucos metros da praia, murmurando, balançando os braços e exibindo na legenda o nome escrito em caracteres japoneses!

Você olha para o celular e vê que os créditos estão acabando – uma ligação, no máximo! Sem pensar duas vezes (nem para imaginar como o maldito rastejou tão para perto da praia sem ser notado), você passa reto pelos nomes do Super-Homem, X-Men, Vingadores e outros heróis gringos de margarina para chamar um autêntico herói japonês! Ou melhor, um grupo de heróis coloridos, completo com veículos bacanas que viram um robô gigante!

Claro, isso é uma cena bizarra e ridícula, mas seria uma cena para lá de corriqueira em um tokusatsu – o nome genérico para designar séries de super-heróis japoneses com atores reais. Na verdade, o termo tokusatsu significa, mais ou menos, “efeitos especiais”, e deveria ser usado para designar qualquer filme ou série com uso maciço de efeitos visuais, maquetes, computação gráfica. Mas, sejamos sinceros, você já viu um filme japonês com efeitos especiais que não tenha pelo menos um robô gigante trocando sopapos com um monstro pisoteador de maquetes?

Antes de mais nada, vamos deixar clara uma coisa: você adora tokusatsu. Isso mesmo. Ah, vamos lá, não precisa mentir... Nós sabemos que você vibrava assistindo ao Jaspion na Rede Manchete. Sabemos que você ficava com o coração na boca, nervoso, assistindo à luta final do Change Robot contra o nefasto "Monstro do Dia". Sabemos que você atolava a sua espada de brinquedo na cabeça dos amiguinhos fingindo ser o Jiraya, o que rendia que o recreio acabasse na diretoria. Sabemos, pois fizemos tudo isso!

Fazia parte de uma infância sadia do final da década de 80. Era um ritual inexorável da época, como brigar pela vassoura para dançar It Must Have Been Love, do Roxette, na reunião dançante da turma. O seu conhecimento sobre heróis, nome dos golpes, monstros e qualquer informação sobre as séries era símbolo de valor e masculinidade no grupo de amigos, como os chifres de um alce. Assistir ao lendário último episódio de uma série, então, valia mais do que a figurinha do Taffarel no álbum do Campeonato Brasileiro de 89 – moeda corrente na conturbada economia brasileira da época.

Eram tempos áureos. E, naqueles tempos, você nem imaginava que o estudo - e a história - dos tokusatsu fosse um assunto tão complexo.

Os tipos de tokusatsu

O otaku (fã de cultura pop japonesa) hardcore classifica os tokusatsu em infinitas categorias, com poucas diferenças entre si. Mas, na verdade, as divisões primordiais são:

- Heróis clássicos - Os heróis japoneses clássicos possuíam nítida inspiração nos heróis americanos (máscara, capa, etc.) e dominaram os anos 50. Exemplos são os imortais National Kid e Gekko Kamen, da produtora Toei.

- Kyodai - Com o advento do mega-sucesso Godzilla, fenômeno de bilheteria mundial (e assunto de uma futura coluna), uma idéia pipocou na cabeça dos produtores nipônicos: e se colocássemos um herói gigante para combater o monstro, ao mesmo tempo pisoteando em seu combate frenético casas, hospitais e maternidades de Tóquio? Assim nasceu o gênero Kyodai (heróis gigantes), o terror da defesa civil de Tóquio. Os maiores heróis gigantes foram Ultra Seven e seus inúmeros sucessores ultra-alguma-coisa, da companhia Tsurubaia. No brasil, o indefectível Spectreman e Ultraman marcaram a infância de muita gente.

-- Henshin - Os próximos na escala evolutiva são os heróis henshin, ou seja, capazes de se transformar. Essa é a categoria mais numerosa, que possui inúmeras ramificações – e representantes de peso como Jaspion, Kamen Raider, Jyban, Metalder, Spielvan, Jiraya, Patrine e muitos outros. Entre os sub-estilos de henshin, encontramos os police henshin(super-integrantes da polícia, estilo Robocop), animal henshin (capazes de se transformarem em leões, tigres e toda sorte de animais), metal henshin (heróis com armaduras metálicas), ninja henshin (que se transformam em ninjas e usam equipamentos tradicionais e milenares, passados de geração para geração, como robôs gigantes e naves), onna senchi (super-heróinas, principalmente as de gosto estético duvidoso), misturas de vários destes, e claro, os super sentai.

- Super sentai - Esse sub-gênero, embora seja essencialmente parte da categoria anterior, merece atenção e destaque especial. "Sentai" quer dizer, basicamente, “esquadrão”, logo, super sentai seria uma super-equipe de heróis fantasiados. O gênero nasceu com Go Ranger, da Toei, em 1975, e deu origem aos modernos (?) Changeman, Flashman, Google Five e inúmeros outros.

Basicamente, os roteiros dessas séries obedeciam a um rigoroso esquema, poucas vezes ignorado ou alterado:

- Os vilões alienígenas, mordidos pela última derrota, juram que dessa vez a coisa anda e fabricam um monstro que teoricamente irá obliterar os heróis da existência;

- O monstro é descoberto pelos heróis, conduzindo um plano de dominação mundial de eficácia duvidosa, como colocando purgante na caixa d’água de uma escola pública;

- Os heróis (rigorosamente divididos nas seguintes cores: vermelho, o líder; azul, o sub-lider; preto; e amarelo e rosa, as duas mulheres do grupo. Opcionalmente, um verde ou branco poderá ser o misterioso “herói misterioso”) racham a cara de trezentos soldados bobalhões em uma pedreira (sempre a mesma), em meio a explosões de fumaça colorida;

- O monstro desce do topo da pedreira e começa a esfregar o chão com a cara dos heróis, que só agora lembram que possuem uma super-bazuca desmontável, da qual cada um tem uma parte (um erro tático terrível: e se um deles ficar doente, ou de licença, ou trancado no trânsito?). Os heróis espalham os átomos do monstro pelo Cosmo;

- Um monstro recorrente aparece e usa seu poder de fazer o monstro original ficar gigante. Claro, os heróis babacas são muito burros para matar este monstro recorrente, que é muito mais fraco.

- Para combater o monstro gigante, os heróis chamam seu robô gigante. O monstro espera pacientemente enquanto o robô se monta demoradamente a partir de veículos/animais/dinossauros mecânicos. Eles não usam um laser orbital, baterias de mísseis ou armas nucleares, preferem ir no velho, bom e confiável sopapo, mesmo.

- O robô apanha feito um cachorro leproso, consumindo bilhares de ienes do contribuinte japonês em manutenção e pintura, para no final utilizar um golpe devastador infalível para acabar com o monstro de vez – golpe que bem poderia ser usado logo no começo, evitando também o pisoteamento de orfanatos, creches e asilos.

Repetindo isso à exaustão, temos uma série. Na verdade, o esquema é tão rentável que mesmo os americanos se apaixonaram, como é o caso do medonho Power Rangers, da Saban, que utiliza as seqüências de luta da versão japonesa e refaz toda a parte com atores em território americano, com legítimos intérpretes brancos loiros protestantes americanos, poupando assim as legítimas crianças brancas loiras protestantes americanas de ter um perigoso e indesejado contato com outras culturas.

Na próxima semana, na coluna Descarga: curiosidades sobre as séries que marcaram a sua infância! Encontrará Jaspion o Pássaro Dourado? Estará Osaka-IV perdida? Continuem acompanhando estas e outras nipônicas emoções! Lutem Sempre, Changemen!




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