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Nós vimos: A Paixão de Cristo
Por Ana Camila — Terça, 16 de março de 2004
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Afora a polêmica que envolveu o novo filme de Mel Gibson, desde a sua produção até a sua estréia nos EUA, a curiosidade, depois de atiçada, não faz levar o espectador a nenhum caminho muito diferente dos quais ele poderia, eventualmente, ter passado. Estão lá os mesmos estereótipos de sempre, as mesmas pseudocríticas de sempre, os mesmos enfoques de sempre. Não que isso seja de todo ruim, afinal de contas não se pode cobrar de um filme algo muito além do que ele propõe. E a proposta do filme era narrar o sofrimento de Jesus em suas últimas 12 horas de vida, detalhe por detalhe. De qualquer forma, assim foi.
Deixando de lado toda a polêmica cansativa que envolve a produção, nos concentremos nas suas questões técnicas, cinematográficas mesmo. E, nesse contexto, o filme tem problemas. Sim, o filme é muito, muito violento. E mesmo que se diga incansavelmente que essa violência é verídica, é questionável o fato de como o diretor resolveu explorar isso. Tem-se a impressão de que é um filme no qual Jesus Cristo está levando porrada o tempo todo. Tanto que, nos (bem-feitos, inclusive) flashbacks onde se mostra o profeta em exercício, a diferença entre as cenas é tão destoante que chega a incomodar. Será que precisávamos ver Jesus se transformando em carne viva diante dos nossos olhos e em primeiro plano? Será que isso é realmente necessário para que saibamos e sintamos todo aquele sofrimento que todos sabemos ser verídico?
De outro ângulo, é discutível que o filme seja anti-semita ou não. Bobagem. Esse problema deveria ser discutido em termos de roteiro. E é exatamente aí que aparece mais um problema, e grave: não tem coisa pior, quando se trata de questões históricas, do que colocar os personagens envolvidos numa estrutura maniqueísta. Anti-semita ou não, Gibson pintou os judeus como sádicos insaciáveis, com fome de sangue e com fetiche por crueldade. E, pense comigo, não foi a primeira vez que fizeram isso no cinema, correto? A última vez, que eu me lembre, foi em O Pianista, de Roman Polanski, que colocou os alemães da mesma forma. Nada mais enfadonho e simplista.
Outra coisa terrível no filme é o exagero em termos de simbologia. Talvez para criar uma atmosfera poética ou metafórica, foi colocada no filme uma imagem do “demônio”, uma mulher vestida de preto com um ar de mistério que, vez ou outra, contestava os pensamentos e ensinamentos de Jesus. Acho que nada no filme funciona tão mal como isso. A atmosfera proposta não consegue entrar em sintonia com a linha de tratamento do filme.
Se não fosse por essas pequenas coisas, talvez o filme fosse correto. Os problemas dele não são de ordem histórica, mas de roteiro e direção. Simples assim. É claro que o fato de estar contando uma história que, não importa de que religião seja o público, é muito emocionante faz do filme um alvo fácil de comoção. E faz isso com muita precisão e, até mesmo, competência. Mesmo com tanto sangue jorrando, mesmo com outros exageros aqui e ali, não se pode negar que houve um cuidado extremo com a produção, a composição de quadros, as atuações, o som... A tecnologia do filme se aproxima do perfeito e ignorar isso seria um pecado.
Em matéria de inovação, novidade, revolução – no sentido de que o filme se propôs a muitas dessas coisas – A Paixão de Cristo continua na mesma linha de muitos outros filmes que, da mesma forma, criaram polêmica e entraram na história do cinema como grandes alvos da curiosidade alheia. Mas, dessa vez, a troco de nada. O filme do Gibson não merece tanta atenção assim. É um filme hollywoodiano, afinal: as mesmas fórmulas, as mesmas premissas dramáticas, os mesmos artifícios. Tudo feito quase de forma perfeita, como tudo que vem dos estúdios de Hollywood. Nada de extraordinário além de um bom filme épico. O detalhe é que o protagonista é Jesus Cristo.
O diretor Mel Gibson em ação
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