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A literatura de ficção científica no cinema
Por Priscila Queiroz — Segunda, 15 de março de 2004
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Na última coluna, falei sobre as adaptações de livros de fantasia e ficção científica que estão vindo por aí. A coluna desta semana é a primeira parte de uma série sobre as adaptações que já passaram pela telona.
Um dos autores campeões de adaptações é Philip K. Dick. O americano, que morreu em 1982, aos 53 anos, já teve sete de suas obras adaptadas para o cinema. A mais recente é o thriller O Pagamento (Paycheck), estréia da semana passada. John Woo levou para o cinema o conto Paycheck, de 1953, sobre o engenheiro Jennings, vivido por Ben Affleck. Ele é especializado em projetos de alta tecnologia e sempre tem sua memória apagada após o término do serviço, para preservar os segredos da empresa para a qual trabalha. Só que ele descobre que desistiu de seu pagamento bilionário em troca de um saco com alguns objetos, que podem ser chaves para o passado que ele esqueceu. Ele começa a ser perseguido e precisa buscar a verdade sobre o que aconteceu.
Memórias apagadas, realidades alternativas, alta tecnologia: temas recorrentes no trabalho de Dick que fazem a festa dos produtores de Hollywood, mais do que nunca interessados em conquistar a geração pós-Matrix. Neste momento, mais obras do autor estão percorrendo o caminho para o cinema. O conto The King of the Elves (também conhecido como Shadrach Jones and the Elves), de 1953, sobre um atendente de posto de gasolina que se descobre líder de uma geração de pessoas pequenas que estão sendo atacadas por trolls, está nas mãos da Disney. The Short Happy Life of the Brown Oxford, de 1954, sobre um sapato que ganha vida, é da Miramax.
Steven Soderbergh e George Clooney teriam recebido da Warner Bros. um projeto para filmar A Scanner Darkly, a história de um policial que investiga traficantes e, por usar drogas, acaba desenvolvendo outra personalidade da qual não tem conhecimento; no fim, ele passa a investigar a si mesmo. Rumores recentes indicam que Richard Linklater, diretor de Waking Life, estaria envolvido no projeto.
A Warner também comprou para Joel Silver, produtor de The Matrix, o livro Time out of Joint, de 1959, uma história no estilo O Show de Truman, sobre um homem que vive em 1998, mas acha que está em 1959. Além desses, outros livros e contos também estão em negociações com estúdios e produtores.
Tudo isso começou em 1982, com o lançamento de Blade Runner, do diretor Ridley Scott, adaptado do livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de 1968. É a história de Rick Deckard, caçador de recompensas encarregado de ir atrás de andróides praticamente iguais a seres humanos em aparência e comportamento, os replicantes, que se rebelaram contra os humanos. Blade Runner hoje é um clássico da ficção científica, mas nunca perdeu o status de cult.
Foi o sucesso comercial de outra adaptação de Dick, O Vingador do Futuro (Total Recall, que levou Hollywood a olhar mais atentamente para as obras de Dick. O Vingador do Futuro é baseado no conto We Can Remember It For You Wholesale ("Podemos recordar para você, por um preço razoável"), de 1966, e, embora não tenha muito a ver com a história original (o personagem de Arnold Schwarzenegger, um operário cheio de músculos, no conto é um balconista que sofre nas mãos da mulher), ainda apresenta a questão básica da maioria das histórias de Philip K. Dick: o que é real?
Em 1992, foi a vez dos franceses adaptarem uma das obras de Dick. O filme Confessions d'un Barjo ("Confissões de um artista ruim"), de Jérôme Boivin, foi baseado no conto Confessions of a Crap Artist, de 1975. Conta a história de um homem simples e obsessivo que adora encher seu caderno com anotações de diálogos palavra por palavra, trivialidades ou reflexões sobre a existência humana. Quando sua casa pega fogo, ele se muda para a casa de sua irmã, que é impulsiva e egoísta, e do marido dela, Charles, uma pessoa normal. O foco então passa a ser Charles, que tem que conviver com os dois. A versão cinematográfica se passa na década de 90, enquanto o conto, que é autobiográfico, é ambientado nos anos 50. Outras diferenças incluem a personalidade dos personagens, que foram reduzidos ao passarem para a tela.
Dick foi novamente adaptado por Hollywood em 1995, com Screamers - Assassinos Cibernéticos. Baseado no conto Second Variety, de 1953, é a história de uma equipe que tenta negociar um acordo de paz intergaláctico que pode pôr fim a uma guerra de décadas entre alguns planetas. Para isso, ele tem que sobreviver aos screamers, armas de guerra criadas pelo homem e programadas para matar seus inimigos que se voltaram contra a humanidade. No elenco, Peter Weller, o Robocop. O resultado nas telas é um pouco distante do conto: Dick ambienta sua história na Terra, em um conflito entre as Nações Unidas e a Rússia, e usa muito menos violência do que o mostrado no filme.
Sete anos depois, em 2002, Dick foi para as telas duas vezes. Em Impostor, baseado no conto de mesmo nome, Gary Sinise é Spencer Olham, engenheiro de armas suspeito de ser um assassino robótico alienígena. Para os fãs, é uma das mais fiéis adaptações das obras de Dick.
O segundo filme a levar o autor para o cinema em 2002 foi Minority Report, de Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise, cujo sucesso foi responsável pela "corrida atrás de Philip K. Dick" que vemos hoje. O filme tem como base o conto The Minority Report, de 1956, e mostra um futuro diferente da visão de Dick, mais brilhante. Enquanto Spielberg está interessado na moralidade do sistema "pré-crime", Dick não se preocupava com isso, e sim com a tensão e a paranóia vividas pelo protagonista.
Se hoje é incensado por leitores e críticos, Philip Kindred Dick não teve em vida essa notoriedade. Ganhou vários prêmios Hugo e Nebula por seus livros e tinha a admiração dos colegas, mas, como outros gênios, o reconhecimento do público e o dinheiro vieram após sua morte, exatamente quando suas obras começaram a chegar ao cinema. Uma injustiça, pois Dick revolucionou o gênero da ficção científica com suas visões sobre "o que é real" e "o que é humano" numa época em que as histórias de sci-fi tinham uma visão muito mais simples de tudo e olhavam mais para o espaço sideral do que para a própria Terra.
Para quem não quer perder tempo e vai começar a ler as obras de Dick agora, a Editora Record lançou Minority Report - A Nova Lei, com o conto que deu origem ao filme e com Podemos Recordar Para Você, Por Um Preço Razoável, que embasou O Vingador do Futuro.
A Editora Francisco Alves lançou O Caçador de Andróides, tradução de Do Androids Dream of Electric Sheep?. Como é uma edição antiga, a melhor pedida para encontrar são os sebos.
Já a Editora Livros do Brasil (que, apesar do nome, é de Portugal) lançou vários títulos do autor, entre eles O Homem Mais Importante do Mundo (Time Out of Joint).
Links interessantes:
Site Oficial do autor
Site da Editora Livros do Brasil
Site da Editora Record
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