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Grandes quadrinhos que cabem no bolso
Por Rafael Lima — Quinta, 11 de março de 2004
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O troféu Ângelo Agostini de 1997 premiou como melhor projeto gráfico uma série recém-lançada e, como vários dos outros vencedores, pouco conhecida do público: a Coleção Mini Tonto.
Tratava-se de uma iniciativa conjunta de artistas do Rio Grande do Sul, em busca de exposição para trabalhos que não chegaram a atingir a mídia, a mesma turma que já dera ao mundo Allan Sieber, Adão, fanzines como Glória, Glória, Aleluia e Kamikaze, além da inesquecível revista DumDum: Fabio Zimbres, Schiavon, MZK, Jaca, o próprio Allan Sieber, Guazzelli e agregados.
O Apocalipse segundo Dr. Zeug, de Fabio Zimbres
É um povo que emergiu de publicações semi-profissionais para postos na Folha de São Paulo, seja fazendo tiras (Vida Besta, de Zimbres; Bifaland, de Sieber; Aline, de Adão), seja produzindo ilustrações para artigos (Jaca), mostrando talento desde o começo dos anos 90 - quando conseguiu dinheiro da prefeitura de Porto Alegre para produzir uma hilariante revista, a mesma que levou os editores às barras do tribunal por mau uso de dinheiro público, quando os deputados descobriram que o primeiro número de DumDum estava repleto de piadas obscenas, indecorosas, politicamente incorretas e preconceituosas. Você lembra: saiu nos jornais de todo país e nunca antes desenhistas de quadrinhos ficaram conhecidos tão rápido por causa de seu trabalho – que infelizmente, não obstante os espaços abertos na Folha, nunca teve a freqüência na mídia merecida.
Não é difícil entender os porquês. Todos os autores eram por demais subversivos na temática e ousados na estética para migrarem até os meios convencionais sem sobressaltos. O famoso Adão, que publicou dois álbuns recentes de Aline, é quase irreconhecível perto do selvagem Adão Iturrusgarai dos caubóis gays Rocky & Hudson, mesmo dos tempos da revista Big Bang Bang, e nessa transição deve ser reconhecido seu mérito em ter sabido se adaptar ao grand monde, processo que Tom Wolfe chamou de “consumação” no livro A Palavra Pintada.
Urrú, de MZK
O fato é que nem todos os demais conseguiram realizar uma consumação tão eficaz quanto a de Adão, o que, somado à preguiça e ao conservadorismo do mercado editorial, contribuiu para o atraso (quando não a ausência) das aparições de Zimbres e cia. Aproveitando a boa maré econômica do Plano Real, e escolhendo um formato versátil e barato – A6, ou seja, uma folha A4 dobrada duas vezes no meio – os gaúchos encontraram um atalho para se divulgar.
Esteticamente, o que unifica os autores é o gosto pela sujeira gráfica: não espere quadrinhos limpinhos. Tematicamente e ideologicamente, são filhos do recente underground norte-americano, apesar de já terem alcançado patamares de qualidade que não deixam nada a dever em relação aos catálogos da Fantagraphics. Isso significa histórias autobiográficas, cultura trash, não-linearidade narrativa, violência e sexo explícitos. Colocar isso tudo em diminutas páginas A6 pode parecer difícil, se você não souber que esse pessoal é egresso da escola de fanzines, e impressiona ver como eles fazem render 30 páginas nesse formato reduzido.
Chumalocatera, de Eloar Guazzelli
Todos os títulos da coleção Mini Tonto merecem uma conferida; por questões de espaço (e gosto pessoal), me atenho aqui a 6 publicações: Comércio, de Guilherme Caldas; O Apocalipse Segundo Dr. Zeug, de Fabio Zimbres; Urrú, de MZK; Mellitus, de Jaca; Réquiem, de Lourenço Mutarelli; Chumalocatera, de Guazzelli, e As Piadas Vagabundas do Steven, de Allan Sieber.
Guilherme Caldas usa um traço limpo, quase europeu, para verter a quadrinhos um conto da II Guerra Mundial de Boris Schaiderman, mostrando intimidade e adaptação da linguagem das HQs no formato pequeno. Zimbres está à vontade em mais um de seus contos surreais, dessa vez uma narrativa apocalíptica, cheia de gente com cabeça de bicho proferindo ditos filosóficos enquanto leva uma vida banal. MZK traz uma coleção de histórias curtas em vigoroso estilo pop, misturando carros velozes, lésbicas viciadas em ópio e lutadores mascarados de luta-livre. Jaca abre sua caixa de Pandora visual, inventando ele mesmo um roteiro sob medida para seus delírios visuais. É um artista completo. Desde que Lourenço Mutarelli tirou de sua prancheta as melhores graphic novels brasileiras de todos os tempos, a qualidade de seus quadrinhos tornou-se inquestionável; Réquiem é uma tocante elegia a um amigo distante, no seu estilo recente, com quadros e texto maiores e sem balões.
Réquiem, de Lourenço Mutarelli
Chumalocatera é o diário de viagem de Guazzelli a San Juan, Puerto Rico, para ser jurado de um concurso de curtas e documentários, quase um Loustal em preto e branco. Allan Sieber provou que até piadas ruins, quando ele quadriniza, podem ficar engraçadas.
E tem ainda Mulher Preta Mágica, de Schiavon , Dimensão Z, de Fido Nesti, Duas Histórias Hereges, de Angel Mosquito, Hermes e as Charlenes, de Mariana Massarani... As edições podem ser compradas através do site www.tonto.com.br.
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