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A Paixão de Gibson
Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 11 de março de 2004
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Mel Gibson deve ser mesmo um bom católico. Não tenho mais nenhuma dúvida de que esse cara deve rezar muito, confessar-se, comungar, ir à missa todo domingo...
Só assim a gente entende como o seu mais recente filme, Paixão de Cristo, pode acabar arrecadando mais de 300 milhões de dólares só nos EUA. Aquilo que começou como uma forte convicção religiosa mostrou ser, isso sim, um ótimo e lucrativo negócio, quase tão lucrativo quanto abrir um templo.
Não duvidem: o sucesso dessa Paixão de Mel Gibson é mesmo um milagre, especialmente num ano em que a indústria do cinema como um todo encolheu nos EUA e os estúdios pareciam aguardar pacientemente que a investida dos elfos e hobbits passasse. No mesmo ano em que O Retorno do Rei arrastou multidões para os cinemas, o "Retorno do Rei dos Reis" mostrou que o cinema ainda é o ópio do povo.
Confesso que não sou muito fã de filmes religiosos. Sou do tempo em que só mesmo um milagre podia livrar a gente daquelas xexelentas versões da vida de Cristo, ou de Marcelino Pão e Vinho durante a Semana Santa. O jeito era realmente a gente se resignar e esperar a Páscoa chegar, longe da telinha e das telonas. Então não preciso nem dizer o que eu achei da última tentação cinematográfica do Padre Marcelo no tal Maria, Mãe do Filho de Deus, né?
Por outro lado, sempre achei importante que se fizessem releituras da vida de Cristo. Daí nunca entendi direito a implicância dos bispos e padres com filmes como Jesus Cristo Superstar, Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard, A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorcese, ou, mais recentemente Dogma, de Kevin Smith. Na minha visão, filmes como esses, mesmo fazendo críticas por vezes contundentes à Igreja Católica, serviam para manter vivos e atuais os mitos de Jesus, da Virgem Maria, da ressureição, etc.
Sempre acreditei piamente que atacar ou proibir esse tipo de filme era uma estratégia meio burra, mas o Vaticano não é mesmo famoso por adotar posições de vanguarda. De todo modo, na maioria das vezes, essas polêmicas só servem mesmo para atiçar a curiosidade do público, levando ainda mais gente aos cinemas para ver o filme proibido, que nem sempre faz jus a todo o bafafá que ele gera.
No caso de A Paixão de Cristo, Mel Gibson vem sendo acusado de ter feito um filme violento, cruel e anti-semita, como se Jesus pudesse ter sido torturado, humilhado, açoitado, crucificado e morto de forma não-violenta. Ou como se o fato histórico de que Jesus ser um revolucionário dentro da hierarquia religiosa judaica não tivesse gerado um movimento de reação por parte dos rabinos conservadores, aliados aos conquistadores romanos. Isso não é religião. É História! E, francamente, isso aconteceu há mais de 2000 anos! Será que ainda é tabu se falar sobre isso?
Bom, mesmo sem ter visto o filme, tenho fé que o Mel Gibson no fundo não deve ter inventado nada, provavelmente apenas carregou mais nas cores. Mas isso já era de se esperar. Basta ver o retrospecto do moço. Ou alguém consegue dizer que os Mad Max, os Máquinas Mortíferas e o Coração Valente são filmes “pacíficos e contemplativos”?
E para ser sincero, acho uma tremenda palhaçada quando o rabino Henry Sobel se manifesta publicamente contra o filme de Mel Gibson ou quando um advogado paulista decide entrar com uma ação pedindo a proibição de A Paixão de Cristo no país, depois de assistir a uma cópia em DVD pirata. Além de uma postura altamente anti-democrática, alguém precisa avisar a esse senhor que comprar DVD pirata é crime, além de provavelmente ser pecado também.
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