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Super Poderes versus Ataques Especiais
Por Rafael Cardoso — Quarta, 10 de março de 2004
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O tema da coluna desta semana pode parecer meio estúpido, e provavelmente o é, mas trata-se de mais um de meus devaneios tentando explicar a febre de cultura japonesa que temos experimentado nos últimos anos. Febre, que certamente deixou a sua marca nos quadrinhos brasileiros, como a perda dos direitos de publicação dos quadrinhos da Marvel e DC pela Editora Abril, o sucesso do manga brasileiro Holy Avenger e o sucesso absoluto de inúmeros mangas nas bancas.
Um dos motivos eu já apontei. Trata-se do fato dos mangas apresentarem histórias com começo meio e fim, ou seja, séries limitadas que apresentam um final ao enredo e aos personagens. Valorizam-se mais os autores de mangas, que as próprias histórias e personagens (com exceções é claro, como é o caso de Pokemon). Um dos vários outros motivos para o sucesso das histórias japonesas eu apresento agora: os maravilhosos Ataques Especiais!!
Os ataques especiais não são uma característica unicamente ligada aos heróis orientais, mas são certamente características inerentes dos mesmos. Desde o lendário e antigoCavaleiros do Zodíaco até os recentes Dragon Ball e Samurai X, os golpes especiais são parte fundamental da história. É costume que os heróis japoneses comecem fracos, inexperientes, tolos e que aprendam e se fortaleçam ao longo de suas jornadas (mesmo os que já são poderosos tendem a ficar ainda mais poderosos e sábios).
Se os clássicos e conhecidos heróis americanos estão limitados a seus super poderes, o mesmo não acontece com os heróis japoneses. Todo mundo já sabe quais são os poderes do Homem-Aranha ou do Super-Homem (que realmente é uma fonte quase infinita de super poderes, principalmente pelo fato de ter sido o primeiro super herói), logo os escritores precisam se desdobrar para a utilização original destes poderes. Para personagens com poucos poderes, o problema parece ainda maior. “Bem, o Anjo é capaz de voar e além disso.... ele... voa...”. Então, dá-lhe danças dos escritores para o “incrível vôo” do Anjo ser útil nas histórias... Volta em meia os heróis das comics americanas podem ganhar novos poderes, mas dificilmente eles são bem aceitos pelos público. Basta ver o caso do Aranha Cósmico ou do Super-Homem Azul. É interessante para vender algumas edições, mas dificilmente rende. Um dos poucos casos que deram certo que me vem a mente é o caso do Flash, que teve seus poderes expandidos de forma gradual e magistral pelo genial Mark Waid, mas o seu sucessor como roteirista do “homem mais rápido do mundo” ignorou sumariamente várias das novas capacidades do herói. E em outras histórias do Flash na Liga da Justiça, alguns autores ignoram os poderes e outros até acrescentam algumas capacidades novas ao corredor escarlate.
Agora, os heróis japoneses não encontram esta dificuldade. Não nos parece estranho ou ilógico que Goku tenha ficado com os cabelos loiros, ganhado uma aura dourada e de quebra o dobro do poder. Ele se tornara o Super Saya-Jin e isto foi legal! Era uma técnica secreta de sua raça, que poucos haviam descoberto no passado e bastou um instante de fúria ao ver seu melhor amigo sendo morto para tudo parecer lógico. E é assim que funciona nos mangas. Uma menor preocupação com a lógica (e maior com a diversão), dá esta liberdade aos mangakas (autores de mangas), que exploram bastante a descoberta e o aprimoramento de novos ataques especiais. Um dos momentos altos da série de Kenshin Himura tratava justamente do aprendizado da técnica final. Himura precisaria arriscar sua vida para aprendê-la, pois sua base era se preocupar mais com a vida alheia que sua própria. Um verdadeiro conceito de vida estava por trás deste ensinamento final, mas basta uma técnica secreta para despertar a alegria do público.
Os golpes especiais, por mais zombados que possam ser pelos leitores e espectadores “maduros”, são certamente muito imprevisíveis, interessantes e principalmente divertidos. Não que eu seja contra os super poderes, que certamente também tem seus atrativos, mas estamos numa época que simplesmente dizer “ele foi picado por uma aranha radioativa” ou “eles sofreram radiações de raios gamas” não conseguem explicar as origens dos super poderes. Os poderes agora precisam ter uma base científica lógica e coerente ou o público os rejeita. E se isso por um lado leva a argumentos mais inteligentes e sérios, por outro torna a questão menos mágica e MUITO mais chata...
E acredito que diversão seja o grande cerne da questão de porque os mangas têm se dado tão bem se comparados aos quadrinhos americanos, mas acho que esta discussão fica para a próxima coluna! E para os fiéis leitores de Super-Homem, Homem-Aranha e X-men que estão indignados, que atire a primeira pedra quem nunca disparou um Meteoro de Pégaso, um Kame-Hame-Ha ou mesmo o bom e velho Hadouken.
Rafael Cardoso lembrando dos bons tempos de Street Fighter II.
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