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Qual o problema de Cláudio Assis?
Por Ana Camila — Segunda, 8 de março de 2004
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Não tem coisa mais irritante do que a conversa do diretor Cláudio Assis (Amarelo Manga) de que nós, brasileiros - e cineastas brasileiros, principalmente -, somos subjugados à cultura norte-americana e que vivemos sob um capitalismo opressor e todo esse blá blá blá. E, pior, ele acha que vai fazer revolução com palavras e discursos tão prepotentes, que, segundo ele mesmo, são capazes de fazer abrir os olhos da sociedade.
O seu próprio filme, Amarelo Manga, define muito bem esse discurso pretensioso e enfadonho. Ele esbraveja para todos os lados que é possível fazer filmes com baixo orçamento e, em função dessa constatação, desmerece os filmes caros que circulam ano a ano pelo Brasil. O engraçado é que, como todo mundo sabe, fazer cinema é caro. Não é que os diretores tenham um fetiche por grandes gastos ou coisa do gênero (como se isso fosse fazer do filme um filme melhor), mas porque uma filmagem exige uma série de recursos e de prestação de serviços que são muito, muito caros.
Como se já não bastasse que muitos dos meios de comunicação brasileiros, principalmente aqueles ligados ao cinema, dessem voz constante ao Cláudio Assis para que ele falasse à vontade sobre como o seu filme é extraordinário – e, diga-se de passagem, não é, já que o filme tem uma série de problemas que não vêm ao caso no momento –, esses dias descobri que ele continua sendo procurado para opinar sobre assuntos ligados ao cinema. E, claro, sem deixar de lado o discurso chatíssimo no qual acredita fielmente.
Pois bem, o diretor foi convidado pelo jornal Folha de São Paulo para debater acerca da importância da premiação de um Oscar para um filme brasileiro - quem tiver interesse em ler o artigo, é só procurar no arquivo da Folha, no dia 28 de fevereiro de 2004.
Não é de se admirar que Assis fez toda uma manifestação contra uma premiação vinda do cinema norte-americano. Além de o artigo se sustentar em cima de argumentos previsíveis e constrangedores, ele faz questão de ignorar que Cidade de Deus, se premiado com ao menos um Oscar, iria, sim, trazer uma outra perspectiva de produção e projeção cinematográfica para o Brasil. Não interessa o quão duvidoso é o valor de uma premiação do Oscar (já que, convenhamos, nos últimos anos a Academia não vem sabendo diferenciar bons de maus filmes), ela sempre traz benefícios, principalmente a diretores estreantes e/ou estrangeiros. E ignorar isso em nome de um discurso anti-capitalista é bobagem e de nada vale.
Muita coisa no artigo escrito pelo diretor de Amarelo Manga é irritante. Mas a principal delas é a hipocrisia. O cineasta faz severas críticas o povo brasileiro (se utilizando de expressões e metáforas com um pseudo tom satírico, com o único e exclusivo objetivo de agredir) que, “ufanista”, torce pelo Oscar, e aos profissionais de cinema que, já se considerando tão bons tecnicamente como os americanos (o que é, ainda, uma inverdade), cobiçam a premiação com muita esperança. Ora, lembro-me muito bem de quando Amarelo Manga estreou mundo afora e de como o Sr. Cláudio Assis se gabava da qualidade do seu filme, que passou a ganhar prêmios em muitos festivais internacionais. Estranho isso, não? Quer dizer então que qualquer outra premiação que não seja o Oscar está valendo?...
É difícil aceitar que uma pessoa, que representa, no cinema brasileiro, o que Cláudio Assis representa, pode ser levada tão a sério. Sim, é possível se fazer filme de baixo orçamento, mas isso não quer dizer que filmes de alto orçamento devem ser depreciados. Não, a premiação do Oscar, só porque vem pautada em bases “hollywoodianas” de se fazer cinema, não deve ser desmerecida e tampouco deve ser ignorada. Torcer por Cidade de Deus no Oscar não tem nada de ufanista ou de “grande ilusão”, como o próprio diz em seu artigo. Não está em questão, aqui, a capacidade da Academia de reconhecer o valor das obras cinematográficas (até porque, como disse antes, isso é bastante duvidoso), mas não se deve ignorar e tampouco esquecer que a dimensão dessa exposição de um filme estrangeiro é importantíssima para o país em questão.
Fazer sensacionalismo em cima disso é demagogia. Ganhar um Oscar é ganhar notoriedade. E o cinema brasileiro precisa disso, precisa ganhar prêmios em festivais. Seja tanto um Oscar ou um do festival de Berlim ou de Cannes ou um qualquer perdido em um país qualquer. Hoje em dia, prêmios em festivais são sinônimos de aparição, de divulgação, de notoriedade. Infelizmente, são poucos os que ainda são capazes de reconhecer a qualidade de um filme, mas hoje não é mais isso que está em jogo. E Cláudio Assis parece que ainda não entendeu isso.
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