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Na Companhia do Medo: nós vimos II
Por Tiago Cordeiro — Sexta, 5 de março de 2004
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Para começar: a premissa do sobrenatural já foi largamente utilizada nos cinemas. Trabalhar com um roteiro que envolva possessão espiritual, significa andar entre o clássico O Exorcista e o pífio Possessão. Portanto, dirigir um filme usando esses elementos está longe de ser uma tarefa das mais fáceis. Problema exclusivo de quem se propõe a fazê-lo e não de quem assiste.
Esclarecendo esses aspectos, podemos discutir o filme Na Companhia do medo ( Gothika, em inglês; ah esses tradutores imprevisíveis...) do diretor Mathieu Kassovitz. Uma psicóloga, Miranda Grey ( Halle Berry), trabalha em um hospício cuidando de uma paciente, Chloe ( Penélope Cruz) que assassinou o padrasto que a violentava e que afirma ser visitada pelo demônio usualmente. Após quase atropelar uma jovem, Miranda tem um acesso de amnésia e acorda 3 dias depois onde trabalhava, acusada de ter matado seu marido, o doutor Douglas Grey ( Charles Dutton), a machadadas.
Kassovitz, consegue trazer uma simbologia do filme que se relaciona aos delírios (?) de Chloe. Os quartos dos pacientes ficam em túneis repletos de concreto, tal como câmaras do inferno. O grande mistério é desvendar quem seria o regente dessa dimensão e quem seria o verdadeiro culpado pelo assassinato do Dr. Grey. Atenção para a adequada repetição de cenas envolvendo espelhos e/ou vidros transparentes. Todas remetem às questões feitas pelo Dr. Grey: Miranda é como Chloe ou outra pessoa? Com isso, podemos questionar a partir de que momento ela é culpada, quando seus atos podem ser justificados ou manipulados?
Efeitos especiais não são usados com freqüência e, quando são, nem sempre é com competência (repare na cena em que as chamas mais aparecem). Entretanto, o maior pecado do filme está em não conseguir dar uma aura de inocência aos verdadeiros culpados, o que não chega a descambar para um desfecho óbvio, mas muito próximo de uma conclusão previsível. Em outras palavras: não há mistério quando o culpado não está completamente oculto da investigação do espectador. Esse é o principal pecado do diretor: conseguir assustar, mas não surpreender.
A respeito dos atores, Halle Berry tem desenvoltura e executa o seu papel com competência. Porém, muito mais convincente é Penélope Cruz, que consegue tornar a sanidade da sua personagem intrigante (bom teria sido se outras coisas seguissem o mesmo caminho). Robert Downey Jr. não demonstra sua habitual qualidade, exercendo sua função de forma mediana. Charles Dutton parece ser inadequado ao papel e à função que carrega. A incerteza que seu personagem não consegue passar compromete o seu papel e a trama.
Para finalizar, aqui vai uma curiosidade: Berry quebrou o braço durante as filmagens em uma cena em que Downey Jr. a empurra para a cama de um hospital. Eu não consegui ver, mas algumas pessoas já declararam que a cena está lá. Fique atento.
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