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Nós vimos: O Custo da Coragem
Por Alfredo Stadtherr — Quarta, 3 de março de 2004
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Apesar de não ter feito tanto sucesso lá fora, o público brasileiro pode se sentir atraído por O Custo da Coragem (Veronica Guerin). Em primeiro lugar, pela frase mágica "baseado em fatos reais". Bastam essas quatro palavrinhas para que multidões assistam a um filme e se emocionem, mesmo que a história pouco tenha a ver com a da pessoa "de verdade".
O segundo motivo, que vai depender somente da maneira como o filme for divulgado aqui, tem a ver com a história recente do nosso país. A trama recria os últimos meses de vida da jornalista irlandesa Veronica Guerin, uma mulher que lutou com unhas e dentes para desvendar as conexões entre o tráfico de drogas em seu país natal e acabou sendo brutalmente assassinada. Alguém mais notou alguma semelhança com a vida do nosso jornalista Tim Lopes?
As coincidências param por aí. Após a morte de Guerin, houve uma intensa pressão da população para que as leis fossem mudadas, e, atualmente, o tráfico de drogas não é mais a principal preocupação da polícia irlandesa. Além disso, os responsáveis pela morte da jornalista estão presos, e foi criado um programa de auxílio às testemunhas. O desfecho da história aqui no Brasil teria sido um pouco diferente.
É verdade que O Custo da Coragem carrega o estigma de ser um filme baseado em fatos reais. Ao mesmo tempo em que é um chamariz para o grande público, costuma ser um motivo para que cinéfilos e críticos de plantão torçam o nariz. Para ser sincero, ele tem alguns dos defeitos desse tipo de produção. Com medo, talvez, de não fazer uma história digna dos méritos da jornalista, acabaram colocando-a (e todos que a cercam, sejam amigos ou familiares) em um patamar acima do ser humano "normal".
A vantagem é que escolheram uma atriz muito competente, uma das melhores de sua geração, para liderar o elenco. Cate Blanchett tenta fugir do clichê do gênero e traz luz à produção, praticamente carregando o filme nas costas. Não que ele seja ruim, e não é, mas a atuação de Cate é, sem dúvida, a melhor parte. E é uma pena que ela não tenha sido lembrada no Oscar, tendo concorrido somente ao Globo de Ouro.
Joel Schumacher parece estar aprendendo com os erros passados e, depois do tenebroso Batman e Robin, só dirigiu películas menores, centradas na história e nos atores. O diretor, aliás, não faz feio quando se trata de uma produção modesta. No caso de O Custo da Coragem, ele realizou um trabalho mediano, o que não chega a ser um problema. O clímax do filme, o assassinato de Veronica Guerin, é uma cena carregada de emoção, quando a fotografia e a trilha sonora, aliadas à direção de Joel, ajudam a dar o clima necessário. Com certeza, a seqüência mais memorável do filme.
Uma grata surpresa foi ver a atriz Brenda Fricker, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante na década de 80 e depois sumiu do mapa, no papel da mãe de Veronica. Ela participa pouco, mas deu para matar a saudade. E, para as fãs incondicionais do novo queridinho de Hollywood, há uma ponta mínima do irlandês Colin Farrell no meio do filme.
É realmente triste saber que a luta de uma pessoa como Veronica Guerin teve um desfecho tão trágico, e Cate Blanchett consegue cativar o espectador do começo ao fim. O final, aliás, gera uma mistura de revolta e orgulho. Ah sim, antes que eu seja apedrejado por revelar o destino da personagem, cabe lembrar que a primeira cena já revela o que vai acontecer. Além disso, o título em português, para variar, é bastante revelador.
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