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Propaganda e globalização
Por Alexandre Maron — Terça, 2 de março de 2004
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O Oscar é um programa de TV de audiência mundial, provavelmente a maior do planeta. Então, a ação lógica é usar esse canhão em prol das causas que importam. E nada é mais importante neste momento do que resgatar a desgastada imagem americana. E a indústria do cinema, que precisa vender ingressos em todos os lugares, sabe muito bem que anti-americanismo é ruim para os negócios. Foi assim que a Academia distribuiu indicações para os quatro cantos do mundo, na tentativa de parecer ecumênica e, no fim, acabou premiando a si mesma. Como sempre.
Ter filmes e artistas estrangeiros entre os indicados significa gente desses lugares sintonizando a TV para torcer. Mas premiá-los no lugar de reconhecer sua própria indústria já seria demais. Todos aqueles candidatos dos quatro cantos do mundo serviram de figuração, de escada para os suspeitos de sempre.
O que nos leva a Cidade de Deus. Fernando Meirelles sabia que nunca iriam reconhecê-lo no lugar de Clint Eastwood ou do bicho papão da noite, Peter Jackson. Da mesma forma, Braulio Mantovani sabia que nunca iriam premiá-lo por um roteiro em português. Mas os indicados por montagem e fotografia tinham chances reais, tão boas quanto qualquer outra, enquanto não se conhecem os bastidores das votações. E vamos falar sério que dar o Oscar de edição para um filme de 9 horas (fora as versões estendidas) é quase uma piada.
Mas a verdade é que, na hora de informar os leitores sobre as chances do filme, os jornais e as TVs pegam leve. Como precisam criar expectativa para faturar na proximidade do evento, ninguém se arrisca a dizer que os indicados não tinham chance e que qualquer vitória eventual seria uma zebra enorme. E não é só falta de interesse em contar os fatos aos seus leitores é também a ausência de gente que entenda do riscado. Pense bem, fora o Rubens Ewald Filho e a Ana Maria Bahiana, que outros jornalistas são experts em Oscar? Este ano, como nossos filmes estavam disputando algumas categorias, não interessava aparecer nada que não desse uma sutil esperança ao leitor/espectador.
O que anima no Oscar é que a comunidade californiana é mesmo mais liberal e progressista do que a média da América. Então, Billy Crystal nos divertia fazendo piadas sobre os tempos estranhos que o país vive e ironizando fatos como a questão do serviço militar do presidente George W. Bush, a pirataria e a chatice dos discursos.
Ah, sim. Discursos. Como eu ia dizendo, a Academia de Artes e Ciências é formada por gente progressista, mas também muito bem comportada quando a coisa aperta. Tim Robbins ganhou o Oscar e, ao contrário do que se esperava, fez um discurso comportadíssimo. Nada sobre o Haiti, que lhe rendeu problemas 11 anos antes. E, pasme, o Haiti estava no meio de uma revolução!!
E o que dizer de Sean Penn, o celebrado outsider do momento? Discurso tímido, sem surpresas.
O que nos leva a pensar em como o espírito corporativista acaba sendo mais forte que tudo. Estamos no momento em que a indústria teve um ano ruim, em que sua renda encolheu (menor massa de dólares ganhos com ingressos vendidos do que nos anos anteriores), em que a tal da pirataria se anuncia como uma ameaça ao negócio de entretenimento como eles conhecem e, claro, no ano em que os americanos vêem que os outros países do mundo, seus fregueses, os enxergam com certo temor e questionam os valores americanos como poucas vezes no passado. Não é hora de se desentender e de brigar em público. Nada de discursos fora de hora que criem confusão. Comportem-se meninos. Peguem suas estatuetas e fiquem quietos.
Sean Penn e Tim Robbins, os dois rebeldes premiados ontem, concretizaram sua amizade e parceria 9 anos atrás, quando Robbins dirigiu Penn em Os Últimos Passos de um Homem. Ambos foram indicados, ao lado da mulher de Robbins, Susan Sarandon, que recebeu o prêmio como melhor atriz. Eles precisaram aceitar o comando de um republicano chamado Clint Eastwood para, como dois cordeirinhos, finalmente ganharem os seus prêmios.
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Em outras notícias...
O canal Sony mudou sua linha de séries definitivamente, se ajustando aos novos tempos, e agora vai transmitir Alias, com maratonas em março e terceiro ano em abril, e Jake 2.0, que chega ao canal também em abril, mas já foi cancelada nos Estados Unidos, tendo apenas uns 15 ou 16 episódios produzidos.
Alguns anos atrás, o Sony se especializou em dramas familiares e comédias de costumes. O mercado mudou, e hoje o canal apresenta títulos como CSI, Alias e Law & Order: Criminal Intent. Sinal de que está antenado.
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