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A morte do CD
Por Luiz Eduardo Ricon — Sexta, 27 de fevereiro de 2004
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Eu me lembro da primeira vez que vi um CD.
Juro que foi um daqueles raros momentos em que pensei que o futuro prometido pela ficção científica tinha finalmente chegado e o próximo passo seria, inevitavelmente, o carro voador. Em poucos anos, o CD dominou tão completamente a cena musical que hoje fica difícil explicar para os meus filhos o que são aqueles discos pretos enormes empilhados na estante.
Quanto ao carro voador...
Algumas das boas coisas do vinil se perderam, especialmente aquelas enormes e luxuosas capas, que davam de um milhão a zero nessas irritantes caixinhas de plástico que se quebram antes mesmo da gente terminar de ouvir o CD pela primeira vez. Entretanto, não há como negar que o CD representa um avanço tecnológico incomparável em relação ao vinil e ao K7.
Mas o que pouca gente percebeu nesses anos todos foi que, junto com a qualidade do áudio digital, o CD trazia uma praticidade enorme para o armazenamento e um sensível ganho de espaço, da fábrica até as prateleiras das lojas (e das nossas estantes), o que significou um barateamento geral da cadeia produtiva e uma conseqüentemente maior lucratividade para a indústria da música. O próximo passo, óbvio até, era eliminar o produto físico e vender apenas a música, pura e simplesmente.
É por isso que agora, depois me irritar por tantos anos, o CD, quem diria, parece estar finalmente com seus dias contados.
Depois da exposão e da implosão do Napster, quando a indústria da música perdeu talvez a sua maior chance em toda História e empurrou o mundo inteiro para o lado obscuro da pirataria digital, as coisas parecem estar entrando novamente nos eixos. O comércio de música digital é hoje um dos negócios que mais crescem. Lá fora, é claro. Por aqui, a história é outra.
Para se ter uma idéia, enquanto o iTunes já vendeu cerca de 20 milhões de downloads em menos de um ano, por aqui o único site especializado - o iMusica - vende por volta de 15 mil downloads/mês. Os artistas relutam em ceder suas músicas e as gravadoras não estão preparadas e nem parecem intreressadas em explorar esse território fértil, preferindo se agarrar ao moribundo formato do CD, batendo cabeça na briga contra os piratas da esquina.
Com o sucesso cada vez mais irreversível das plataformas de vendas de músicas online, com o apoio de aparatos como o iPod por exemplo, os gigantes parecem estar se equilibrando e conseguindo finalmente entender que a internet pode ser uma grande ferramenta e que o objetivo da indústria da música deveria ser o de atender os desejos do consumidor ao invés de mandar a polícia prender adolescentes que baixam MP3 em casa.
E se no Brasil o mercado de venda de música online ainda engatinha e tudo indica que vamos perder mais essa corrida, lá fora o CD vai rapidamente se tornando quase tão obsoleto quanto o vinil.
Para um dinossauro feito eu, que ainda conserva uma enorme coleção de discos de vinil em casa e morre de saudade daqueles chiadinhos da agulha dos velhos toca-discos, isso não chega a ser uma doce vingança, mas passa bem perto.
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