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Qual é a sua tática de invasão?
Por Rodrigo Cotrim — Sexta, 20 de fevereiro de 2004
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Somente nossos valores guiam de fato as nossas vidas? Até que ponto nos permitimos viver os valores dos outros ou impomos os nossos padrões àqueles que nos cercam? Há um equilíbrio nesse jogo insano de egos? Temos livre arbítrio irrestrito sobre nossas vidas? O dinheiro compra valores?
As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares) é um bom filme canadense, dirigido por Denys Arcand, mesmo diretor de O Declínio do Império Americano (um filme anterior com os mesmos personagens de Invasões, passado 17 anos antes). O filme é denso, toca em assuntos polêmicos num tom irônico e, por isso, deixou a sua marca. Andou por Cannes, recebeu indicações ao Oscar de melhor roteiro e filme estrangeiro e, entre outros diversos prêmios, foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.
Existem diversas frentes de discussão no filme, sejam trazidas pelos amigos de Rémy (personagem principal), pela traficante amiga de Sebástien (filho de Rémy) ou ainda pela ex-mulher. “Pano para muita manga”, prefiro não entrar nesses “pormenores”... A questão do (des)controle sobre a vida, tão bem explorada no filme, merece destaque.
Rémy vive um estado de saúde e de valores deteriorado. Sebástien, um jovem ambicioso que trabalha como corretor da Bolsa de Valores de Londres, o suporta financeiramente, enquanto luta para resgatar o amor e o respeito ao pai. No discurso de Rémy, há citações socialistas, fortes crenças quanto à vivência da liberdade sexual, mas também algumas negligências das responsabilidades do papel de pai, o que contribuiu para o histórico de desentendimentos entre pai e filho no passado.
Todo o filme é balizado no conflito das visões socialistas e capitalistas. Essa discussão contextualiza toda a estrutura de argumentação do roteiro. A ligação do macro (sociedade) com o micro-universo explorado (neste caso, o núcleo de Rémy) é a noção de que a preocupação com a realização pessoal em detrimento dos interesses coletivos culmina por detonar toda e qualquer organização, seja ela uma família, um grupo de amigos, um país. Essa realização pessoal estaria intimamente ligada ao entendimento do que se é permitido fazer, tendo “assumido responsabilidades” de pai, marido, provedor, de amigo.
Deveriam existir momentos na vida em que tivéssemos autonomia para escolher o que fazer com ela sem a preocupação excessiva em relação aos impactos negativos dessas escolhas na vida das outras pessoas. (In) Felizmente, não temos o controle total das situações, as circunstâncias nos limitam, criam fronteiras. Os sonhos socialistas cedem aos apelos do capital... A apologia à liberação sexual sofre com a disseminação da AIDS e outras DSTs, enfim, há diversos fatores que nos obrigam a rever certos parâmetros, a reconsiderar certas atitudes, a realinhar certas premissas. Isso nos tornaria menos fiéis a nossos princípios? Não acredito... apenas mais sensatos talvez.
Há um momento muito particular dentro da história, quando é apresentada uma proposta de relacionamento no mínimo interessante: a do respeito quase que irrestrito às decisões do indivíduo, independente do impacto dessas escolhas na vida dos envolvidos. Quando exercemos esse modelo de respeito à decisão do próximo quanto ao que o mesmo deseja fazer com a sua vida, talvez nos tornemos mais livres, menos sofredores, menos refém do nosso egoísmo de querer que o outro viva do jeito que acreditamos ser o certo.
Gosto dessa discussão. Ser ético não é abrir mão do que se pensa em prol do próximo, é respeitar o outro e a si próprio, se reconhecendo como um ser que produz, que pensa e que pode desenvolver o seu próprio caminho, questionando, refletindo, influenciando.
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