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Não foi Benigno!
Por Ana Camila — Segunda, 16 de fevereiro de 2004
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Essa semana tive o prazer de rever o filme que considero o melhor de Pedro Almodóvar, Fale com Ela. É incrível como, a cada vez que o assisto, mais certa eu fico de que Benigno não foi o culpado pela gravidez de Alicia e que essa é a grande sacada do filme. E como eu sei que muitas pessoas sequer se questionaram a respeito disso quando assistiram ao filme, vou tentar, aqui, fazer uma defesa do nosso amigo Benigno.
De todas as personagens do filme, creio que Benigno é a mais complexa. Como é comum nos filmes de Almodóvar, suas personagens sempre estão inseridas num contexto traumático, um passado que deixa marcas relevantes da personalidade atual explorada nos filmes. Almodóvar gosta de explorar a dor do trauma, gosta de abordar com extrema sensibilidade as "entranhas" da personalidade dos indivíduos que cria - esse é o seu objeto de trabalho.
Olhemos, então, para Benigno. O que vemos logo de cara é um homem frágil, daqueles retraídos que nunca tiveram uma vida "legal", aquela que toda criança quer ter e depois todo adolescente quer ter também. Toda idade tem seu tempo, seus momentos bons. Mas Benigno dedicou sua vida a cuidar de sua mãe doente, sua vida se resumia à vida dela. É tudo, obviamente, uma questão de determinismo. Benigno "viveu" pouco, conheceu muito pouco da vida, apenas aprendeu a ser bom, a ser gentil, a cuidar do próximo. O que se reflete em dois aspectos de sua vida: o primeiro, mais direto, que é a sua profissão (enfermeiro); o segundo, e mais metafórico, no sentido de realmente influir no roteiro, que é o seu nome. Almodóvar imprime no nome da sua personagem a característica que lhe é, de fato, mais consistente.
Continuemos a olhar para Benigno. Em sua solidão contida - já que nunca pareceu lamentar sua condição de enfermeiro da mãe e garoto sem amigos, sem vida - passa horas na janela do seu solitário apartamento a observar a bela (belíssima, diga-se de passagem) Alicia, a bailarina. Por determinismo, para um homem que não conhece nada, o belo é extremamente belo. Benigno nunca teve uma mulher. Alicia é uma linda mulher. Ele, em teoria, se apaixona por ela. Mas não é paixão. É deslumbramento. Benigno age como uma criança que vê o mundo pela primeira vez. Por determinismo, ele não está acostumado a discernir sobre as relações humanas, tampouco aquela que não viveu, mas ele sente alguma coisa diferente com Alicia. Ela é bonita e a beleza é, de início, tudo o que é necessário.
Como um garoto que se deslumbra com uma modelo de revista, Benigno se deslumbra com Alicia e, compreensivelmente, age inocentemente ao seu lado, inventando, como uma criança, situações que o permita apenas poder ter o mínimo de contato com Alicia - seja ouvindo sua voz, respirando o seu mesmo ar, conhecendo sua casa, roubando a sua presilha de cabelo, conhecendo o seu pai. Entenda que o paralelo com uma criança persiste pelo fato único e exclusivo de, antes, haver uma constatação determinista. Isso se comprova. Todo ser humano é fruto do meio, e Almodóvar, durante todo o filme, nos permite conhecer a trajetória de vida de Benigno e o que o levou a ser como é.
Diante disso, Benigno conhece o amor. Claro, existem milhões de formas de amor e de amar. E Almodóvar sempre foi mestre na arte de falar sobre amor. Sempre procurando explorá-lo da forma mais inusitada possível, tentando mostrar que o amor existe em tudo o que fazemos e queremos fazer, Almodóvar, dessa vez, mostra que o amor existe, sim, sem a paixão. Almodóvar coloca em cheque a questão do amor, da paixão e do bem (do fazer bem ao outro). Benigno aprende a amar e talvez nem tenha percebido isso, talvez nem tenha entendido o quão puro era o seu amor por Alicia.
Após o acidente de Alicia, Benigno vê que pode estar perto dela e fazer por ela o que sempre fez por todos: cuidar, tomar conta, trazer de volta à vida. Há quatro anos Alicia está em coma e há quatro anos Benigno se sente parte da vida de Alicia. Ele conseguiu chegar perto dela, viver com ela, falar com ela. E aqui, perceba, encontra-se o cerne da história. O amor de Benigno é puro e, para os mais simplistas, pode ser confundido facilmente com obsessão. A forma que Benigno tem de amar é pura e se contrasta, propositalmente, com a outra personagem que Almodóvar insere no conflito, Marco. Enquanto Lydia, a toureira, encontra-se em coma, Marco é incapaz de falar com ela com tanta naturalidade como Benigno faz com Alicia. Claro, Marco e Lydia tiveram um envolvimento físico e emocional que não aconteceu entre Alicia e Benigno. E esse é o X da questão.
Não sei se vale a pena defender a tese de que Benigno era homossexual ou "assexuado". A minha intenção não é essa, mas lembrem-se de uma coisa importante: a sexualidade de Benigno é colocada em questão no filme. Almodóvar, como também costuma fazer em seus filmes, dá uma importância notável à questão da sexualidade, em todas as suas nuances. Discutir a sexualidade de Benigno nos remete à cena em que o pai de Alicia o interroga a respeito dessa questão e o enfermeiro perece seguro. Claro, naquele momento, especialmente, temos em um plano fechado as mãos de Benigno passeando pelas coxas de Alicia, um ato que poderia ser extremamente sensual, mas que, como sabemos depois de todo o envolvimento com o filme e com a personagem, não passa de uma atitude de rotina entre Benigno e sua amada paciente.
A questão, meus caros, é muito simples: Benigno, em momento nenhum do filme, demonstra qualquer tipo de desejo sexual por Alicia. Sua felicidade consiste na convivência com a bailarina, no fato de poder cuidar dela, de ser bom para ela, de esperar para que ela volte à vida. Esse é o amor de Benigno. Puro. Enorme. Incontestável. E Almodóvar retrata o amor em sua essência, aquele que não está ligado apenas ao físico, ao sexo, ao material. A Benigno bastava a vida de Alicia e, se ela voltasse a viver normalmente, a ele basta.
E é por tudo isso que Benigno seria extremamente INCAPAZ de estuprar Alicia. Sim, aquilo foi um estupro. E Almodóvar deixou duas pistas que nos remetem a essa conclusão.
Primeira: O enfermeiro que dedurou Benigno é tudo o que ele não é: bonito, jovem, aparentemente bem resolvido sexualmente e seguro diante do que fala e do que faz. Ele aparece num momento decisivo na vida de Benigno e no próprio filme, representa uma personagem forte que exerce sua influência em menos de dois minutos. Uma personagem chave, eu diria. Almodóvar insinua claramente que o jovem enfermeiro poderia ter sido o estuprador. E o mais interessante é notar que, durante a cena em que a equipe médica está reunida, nunca se mostra um plano apenas para Benigno. Todas as vezes que Benigno é
enquadrado, lá está o enfermeiro sentado ao seu lado, sendo enquadrado no mesmo plano, mesmo que não esteja falando nada. Bom, se ele não tivesse uma função narrativa, certamente não estaria aparecendo ali. E quem viu o filme com atenção notou que os olhares do enfermeiro são de puro nervosismo.
Segunda: O curta-metragem inserido no filme é uma grande ironia. Além de ser um momento de bizarrice total - só pra dizer que Almodóvar continua, essencialmente, bizarro - o curta-metragem é, ao meu ver, uma forma bastante inteligente de dobrar o espectador. Benigno sempre ia a espetáculos e videotecas fazer as coisas que Alicia gostava, e tudo no filme nos indica que o seu prazer era simplesmente narrar essas idas à Alicia. O curta foi uma ironia, o próprio Almodóvar colocando a sua personagem em questão. E isso, mais uma vez, é característico na sua obra. Assim sendo, é ingênuo e fácil demais aceitar a idéia de que Benigno pudesse ter uma relação sexual com Alicia.
E, para os que perderam alguma coisa do filme por falta de atenção, na noite do estupro, Benigno não esteve com Alicia. A enfermeira que sempre pedia para que Benigno a substituísse em algumas noites naquele dia não pôde contar com ele, já que ele havia ido ao cinema, assistir justamente ao curta-metragem que narra a Alicia no outro dia. É claro que isso não está explícito no filme, mas é só uma questão de observação.
É claro que, aqui, não podemos ignorar os devaneios de Benigno. Entretanto, não estamos analisando o amor de Benigno diante de padrões convencionais, o amor dele é diferente e o filme é sobre o amor dele, sobre a forma dele de amar. É por isso que, mais uma vez, as mulheres são essenciais nos filmes de Almodóvar, e é por isso também que Marco aparece no filme apenas para ressaltar o quão puro é o amor de Benigno. Tanto que, ao entender isso, Marco se insere, de alguma forma, no drama pessoal do amigo, porque as pessoas não entenderiam a sua forma de amar.
E, para um homem que aprendeu a amar como Benigno, a inocência e a pureza são essências de todos os seus sentimentos e suas ações. Por isso ele aceitou ser culpado pelo que não fez. Por isso ele quis entrar em coma para viver ao lado de Alicia, como outrora. Porque ele era feliz. Porque ele estava amando. E isso bastava. E, magistralmente, Almodóvar conduz a história sempre confrontando a forma de amar de Benigno e a forma convencional de amar. Benigno é preso. Tenta entrar em coma, mas exagera na dose e morre. Morre sem saber que Alicia saiu do coma e que perdeu o bebê. Alicia passa a viver sem saber de Benigno, que tanto bem lhe fez. Tudo acontece por forças externas. Por mais que o amor seja puro, por mais que exista a mais bela inocência, tudo é decidido por forças externas. E aqui não existem julgamentos nem dos espectadores, nem do diretor do filme, mas das suas próprias personagens.
É um filme sobre amor, sobre uma extraordinária maneira de amar. E um tipo de amor que, obviamente, é incompreendido. E o nome do filme é muito esclarecedor nessa questão. Não existe nada tão difícil como "falar com ela". Quem entenderia alguém que se comunica normalmente com uma pessoa que se encontra em coma? Ninguém entenderia. Mas Marco entende, Marco é a personagem muleta de Benigno e de nós mesmos, o público. Nós também não entendemos o amor de Benigno e Almodóvar nos prova isso de forma sutil. Que fácil é ignorar tudo o que sabemos da índole de Benigno quando o diretor nos induz a pensar que BENIGNO poderia ser, de alguma forma, MALIGNO com alguém por quem ele tem tanto amor. E Almodóvar brinca muito com isso. Como na cena em que as pessoas que estão no camarim de Lydia (antes de ela chegar) comentam sobre os padres que de santos não têm nada. O filme inteiro nos faz ver Benigno de forma crua, determinista. O resto é julgamento. E o público julga e julga. E só, porque é bem mais fácil julgar.
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