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Stuck Rubber Baby
Por Rafael Lima — Quarta, 11 de fevereiro de 2004
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Quais são os limites de uma história em quadrinhos? Um elogio comum que se costuma fazer a toda obra notável é dizer que ela “expandiu os limites da linguagem” dos quadrinhos. Ou seja, que provou que algo tido como impossível de ser narrado em quadrinhos não era tão impossível assim. Poucas obras expandiram tanto esses limites como a graphic novel Stuck Rubber Baby, de Howard Cruse.
O enredo gira em torno das revoluções que ocorrem na vida de Toland Polk, jovem morador de uma cidadezinha no sul dos EUA - no período entre a crise dos mísseis cubana e o assassinato de Kennedy - disparadas pela chegada de Sammy Noone, ex-cadete da Marinha e organista contratado pela igreja episcopal. Sammy trava contato com Polk através Mavis, sua amiga de infância e namorada de Riley, casal com o qual Toland havia ido morar depois da morte de seus pais em um desastre de automóvel. Sammy Noone é o elemento dionisíaco, o que irá alavancar os maiores conflitos da história ao introduzir seus amigos ao submundo boêmio, gay e integracionista da cidade – pois estamos falando do período marcado pelas maiores manifestações de negros em prol dos direitos civis, a mesma época em que frios assassinatos motivados pelo ódio racial ocorriam no sul dos EUA, como mostra o filme Mississipi Burning.
O grande mérito da história é conseguir abranger toda a complexidade das manifestações sociais do período, superando até mesmo Maus, de Art Spiegelman (tem paralelo apenas em From Hell, com mais que o dobro de páginas). Em uma passeata, o regente Shiloh leva seu coro a entoar uma canção gospel sobre liberdade, mostrando claramente como as igrejas haviam se convertido em focos para organização civil de grupos políticos (em determinado momento, Cruse escreve: “Igrejas! É impossível escapar delas no sul”). A própria história da segregação racial não pode ser corretamente entendida sem levar em conta a música como fator de identidade cultural dos negros, e o autor pontua toda a história com canções incidentais de fundo. Como se fosse pouco, ainda traça um paralelo entre a discriminação de negros e a de homossexuais, já que Stuck Rubber Baby foi muitas vezes descrita como a história da descoberta de um jovem de sua própria condição homossexual – Toland Polk.
A atração que Toland Polk sente por Ginger, universitária liberal e aspirante a cantora folk, começa como admiração pela postura política decidida e confiante dela, contrastante com sua enorme alienação, que lembra o comportamento do personagem de Woody Allen em The Front, ou o de Marcelo Mastroianni em Sostiene Pereira. Mas o alheamento auto-centrado de Polk, que dará a tônica de seu comportamento por toda a história, ultrapassa o mero posicionamento político; ele é um príncipe da hesitação, como Hamlet, cuja incapacidade em se decidir ocasionará as piores conseqüências. O próprio título da história é uma referência a uma relação sexual na qual ele se envolve e que acaba não decolando por causa de uma camisinha ressecada (stuck rubber). Aliás, o adjetivo stuck (travado, parado, preso) descreve muito da personalidade de Toland.
O único problema é que Cruse usa tons muito mais fortes ao pintar a discriminação racial do que a sexual. Sammy Noone, homosseuxal, é recebido com naturalidade entre Mavis e Riley, apesar de Riley ser entusiasta da filosofia que Hugh Hefner expunha nas páginas da Playboy. O único personagem que abertamente manifesta reservas contra Sammy é o marido da irmã de Polk. Harland Pepper, reverendo batista, mantém-se em ótimos termos com seu filho Les, também homossexual; enfim, há a impressão de um clima de recepção calorosa a todos os personagens gays da história, e todos os atentados violentos são provenientes de grupos separatistas como o Ku Klux Klan, nunca de homofóbicos hidrofóbicos. E como alguém comentou na página da Amazon, nenhum personagem gay é racista e nenhum personagem negro é homofóbico – hipóteses difíceis de engolir em se tratando do sul dos EUA, na década de 60. Howard Cruse, homossexual e cartunista militante nascido e criado em Birminghan, Alabama, disse ter baseado a história em fatos de sua vida e na de amigos: se ele, que passou por aquilo, preferiu assim...
Para narrar Stuck Rubber Baby em 210 páginas, Cruse escolheu um estilo cheio de mumunhas. Dividu a página até em 16 quadros, entulhando-a com desenhos e texto (os personagens falam muito, há pouquíssimas cenas de ação sem balões) – é preciso de fôlego para avançar, e cuidado para não se enrolar nos flashbacks dentro de flashbacks, usados para reforçar sensações difusas com lembranças do passado. Recuou em seu traço humorístico, aproximando-se mais do realista, sem perder o peso das linhas e os arredondados, e conseguiu um efeito soberbo ao cobrir os volumes com hachuras que acentuam o teor dramático. É um herdeiro do underground. Apesar da diagramação quase sempre quadradinha em função da narrativa, têm particular brilho o humor econômico e a cena em que Sammy Noone retorna para acertar as contas com seu pai.
Stuck Rubber Baby é um daqueles exemplares para você mostrar a quem nunca leu quadrinhos o quanto se pode fazer com Hqs.
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