Se você algum dia leu uma HQ de super-herói, deve muito a esse cara.
Morreu no último domingo, devido a complicações de uma pneumonia, Julius Schwartz, 88 anos, editor emérito da DC Comics e tratado como lenda viva pelas comunidades de quadrinhos e de ficção científica americanas.
Schwartz trabalhou na DC por
cinco décadas e foi responsável pela revitalização do
Super-Homem,
Batman,
Lanterna Verde e muitos outros personagens na virada da década de 50 para 60, o que lhe rendeu o título de “arquiteto da Era de Prata” dos quadrinhos.
"Conheço muita gente no nosso negócio, mas poucos eu posso chamar de amigos. Julie ajudou muitos, como editor e como pessoa, simplesmente sendo um cara legal e direito", diz o clássico ilustrador
Joe Kubert.
"Sem ele, o cenário dos quadrinhos seria totalmente diferente. Sua morte é realmente o fim de um era", completa
Neil Gaiman.
Schwartz nasceu no dia 19 de junho de 1915 em Nova York. Em 1932, ele criou o primeiro fanzine de ficção científica,
The Time Traveler. Em seguinda, formou a
Solar Sales Services, primeira agência literária especializada em ficção científica, que tinha como cliente, entre outros,
H. P. Lovecraft. Em 1939, organizou a primeira Feira Mundial de Ficção Científica.
Em 1944, ele entrou na
All-America Comics - que, se fundindo com outras, formaria a DC anos depois. Viu o final da Era de Ouro das HQs de super-heróis e editou muitas revistas de
western e ficção científica, trabalhando com gente como
Gil Kane e
Carmine Infatino.
Após muitos anos sem gibis de heróis nas bancas, Schwartz fez uma aposta arriscada em 1956 e lançou na revista
Showcase 4 a nova versão do
Flash. Essa edição é considerada o marco do início da Era de Prata das HQs. Nos anos seguintes, Schwartz lançou as versões atualizadas de
Lanterna Verde,
Liga da Justiça,
Gavião Negro e outros, o que gerou respostas da
Marvel, relançando o
Capitão América,
Namor e a nova versão do
Tocha Humana no
Quarteto Fantástico. Não esquecendo da sua paixão por ficção científica, Schwartz lançou o personagem
Adam Strange.
Em 1961, Schwartz promoveu o encontro do Flash da Era de Prata e Flash da Era de Ouro –
Joel Ciclone no Brasil – com cada um vindo de um mundo diferente. Foi a primeira vez que o conceito de "terras paralelas" apareceu na DC, apresentando Terra 2, Terra 3, Terra X e todas as outras que
Marv Wolfman e
George Pérez fundiram depois com a
Crise nas Infinitas Terras.
No ano de 1964, ele começou a editar o
Batman, serviço que cumpriu até 1978. Foi Schwartz quem colocou
Dennis O’Neil e
Neal Adams na equipe criativa do Cavaleiro das Trevas, lançando muitos elementos utilizados até hoje, como o clima sombrio e claustrofóbico das histórias e a narrativa detetivesca. Com a supervisão de Schwartz, O’Neil e Adams criaram a parceria entre o
Lanterna Verde e o
Arqueiro Verde, que inseriu vários temas contemporâneos que ainda estavam fora das HQs, como drogas e prostituição.
Ele passou a acumular a função de editor do
Super-Homem em 1971 – coisa que fez até se aposentar, em 1986 –, retirando elementos que considerava datados, inserindo novos personagens e transformando
Clark Kent em repórter de TV. A última história que editou foi
Super-Homem, o Adeus, escrita por
Alan Moore e ilustrada por
Curt Swan,
George Pérez e
Kurt Schaffenberger, considerada por ele o capítulo final do Super-Homem da Era de Prata.
Schwartz recebeu inúmeros prêmios durante a sua carreira, sendo o mais importante o
Jules Verne Award. Em 1998, ele virou nome de prêmio: o
Julie Award é dado para quem se destaca em mais de uma mídia.
Will Eisner e
Neil Gaiman são dois dos contemplados. Em 2000, Schwartz lançou, em parceria com Brian Thomsen, seu livro de memórias,
Man of Two Worlds: My Life in Science Fiction and Comics (“Homem de Dois Mundos: Minha Vida na Ficção Científica e nos Quadrinhos”, sem edição no Brasil).
Julius Schwartz morava com seu genro e deixou três netos e cinco bisnetos.