Rio de Jano - uma cidade de verdade

Por Rafael Lima — Sábado, 7 de fevereiro de 2004

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Certas histórias só ganham completa dimensão quando colocadas em perspectiva. Tome-se como exemplo o documentário Rio de Jano, com estréia neste fim de semana nas telas cariocas: quem imaginaria que um quadrinhista francês que não saía do botequim de frente à sede da 2ª Bienal HQ faria um dos melhores retratos do Rio de Janeiro? Quem imaginaria um álbum de desenhos seria tema de um dos documentários cinematográficos mais bonitos sobre a cidade?

Foi em 1993, no Centro Cultural dos Correios, sede da 2ª Bienal HQ, que o cartunista francês Jean Le Guay, dito Jano (pronuncia-se "Janô"), não podia ser encontrado de jeito nenhum. Aquartelara-se num pé sujo próximo, onde ficava batendo papo com outros desenhistas, bebendo caipirinha e rabiscando guardanapos. Até seu conterrâneo Wolinski teve a pachorra de participar de alguns debates - quando lapidou sua sabedoria etílica numa frase: "todo cartunista é de esquerda, mulherengo e alcoólatra".

Ainda assim, Jano foi dos mais queridos num evento onde não faltaram fãs. E olha que só havia sido publicado um álbum dele em português, Wallaye!, como graphic novel pela editora Abril. Sim, a revista Animal também publicara histórias curtas do rato Kebra, mais antigas, no suplemento em preto e branco MAU, mas estas se perdiam na maré de nomes apresentados naquelas páginas.


Momentos de descontração...

Jano retornaria mais uma vez ao Brasil em meados dos anos 90, porém não para o Rio - organizadores da Bienal levaram a festa para Belo Horizonte, agora chamada Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ); deu depoimento para um documentário sobre Will Eisner e expôs seus trabalhos. Dentre eles, dois álbuns chamaram a atenção de Roberto Ribeiro, um dos organizadores: Paname e Cahiers d'Afrique. Não eram dois álbuns típicos de quadrinhos, eram coleções de imagens, cenas públicas e paisagens dedicadas a Paris (onde Jano mora) e a países africanos (visitados em viagem por Jano), respectivamente. A idéia de produzir um sobre o Rio de Janeiro era nada menos que natural.

No verão de 2001, Jano ficou hospedado por 40 dias numa casa no tranqüilo bairro de Santa Teresa, base para seus deslocamentos até Barra de Guaratiba, centro da cidade, Catete, Vila Mimosa, Realengo, Ipanema e inúmeros outros logradouros, modelos para suas pranchas. Nesses deslocamentos, foi acompanhado por pessoas como Roberto Ribeiro, Heitor Pitombo e José Eduardo Souza Lima, jornalista d'O Globo que documentou a estadia, junto com Anna Azevedo e Renata Baldi. Finda a estadia, Jano voltou ao seu estúdio num banlieu parisiense para finalizar os desenhos que formariam o álbum, publicado em novembro de 2001 pela Casa 21, ao mesmo tempo em que, na França, era lançada a edição da Albin Michel, com prefácio de Wolinski (o nacional era do Chico Caruso).

Clique nas imagens para ampliá-las


Belezas de Ipanema... e noites no Rio

Ao longo do biênio que se seguiu, Anna, "Zé José" e Renata queimaram muita pestana para costurar num roteiro a montanha de imagens captadas digitalmente, selecionar uma trilha sonora adequada e produzir vinhetas com os cartuns de Jano - as últimas, a cargo da Toscographics, estúdio de Allan Sieber, que produzira animações para vários filmes nacionais (O Homem que Copiava, Era Uma Vez Dois Verões). Muita ilha de edição mais tarde, finalmente estreou O Rio de Jano no Festival de Cinema de 2003, com direito a presença dos diretores em premiére no Cine Odeon. Os risos da platéia e as palmas no final eram um referendo inconteste; enfim, eles puderam soltar o fôlego.

O filme começa com um passeio de carro pelo Aterro do Flamengo, mirando um dos cartões postais mais manjados da cidade, o Pão de Açúcar (capa da edição francesa). Jano vai fazendo seus comentários em off, em francês. Logo no começo, ele explica de maneira didática como se inspirou em pinturas sobre o Rio de Janeiro feitas por franceses do século XIX, como Debret.


O Pão de Açucar... e jogo no Maracanã

A medida em que vai conhecendo a cidade - passa uma tarde plácida em Paquetá, assiste a um jogo no Maracanã, toca gaita no show de uma banda underground, sobe uma favela - Jano vai pegando as manhas locais, enquanto explica suas escolhas, como retratar a arquitetura antiga do Catete ao invés do paredão de concreto de Copacabana. Faz observações perfeitas sobre costumes locais, como o hábito de usar o polegar para dizer tudo, ou os curiosos manequins do calçadão de Madureira, que são só as pernas, e ficam com a bunda virada para fora.


Manequins em Madureira

Bate papo com outro estrangeiro sentado na carreta de um caminhão numa praça em Laranjeiras, numa das cenas mais hilárias do filme, um achado. E assim, como quem não quer nada, Jano passa por aquele processo que corrompe todos os estrangeiros que aportam nessa terra, fazendo deles quase cariocas: já está mastigando um português, já está um pouco bronzeado - e o espectador, enfeitiçado em mais uma mostra da inesgotável magia de seu habitat.


Cantada na Cinelândia... e churrasco em Realengo




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Livro > Paulo Mendes da Rocha (Helio Pinon)
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Livro > Pequena História da Dança (Antonio Jose Faro)
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