ou "Como apresentar seu projeto - parte 1 de 2"
- Você conhece a linha editorial da Brainstore? - pergunto ao interessado em apresentar-me um projeto de HQ.
- Não. Mas, se não houver uma linha em que esta HQ se encaixe, sugiro que crie uma.
Uma resposta dessas causa dois constrangimentos: o primeiro é você estar falando com uma pessoa que nem sequer acompanha o que você faz; o segundo é que essa pessoa, que não conhece o que você faz, está dando palpite em algo que ela nem conhece. Eu, no período em que atuo na área editorial, venho vivenciando várias dessas passagens.
- Aqui está a HQ, tá tudo completo, prontinho para ser publicado! - caso seja alguém de renome, tudo bem, vale a análise, vale a discussão, mas para alguém que nunca foi publicado não pega bem. Além disso, o papel de editar implica coordenar o projeto e gerenciar a produção editorial e gráfica. Ainda mais no meu caso, que sou editor e
publisher ao mesmo tempo.
- Olha, isso aqui é que nem o
Frank Miller faz! - aí o editor olha e acha que aquilo é uma ofensa ao Frank Miller, célebre autor de
Sin City e
Batman - Cavaleiro das Trevas. Comparações desse tipo, além de presunçosas, são muito perigosas.
Gafes, eu já vi muitas! Uma vez um "cabra" me mandou um e-mail, elogiando (calorosamente) a editora e pedindo para marcar hora para apresentar um projeto editorial. "Adoro o trabalho dessa laboriosa editora e gostaria muitíssimo de participar desse quadro formado por tão excelentes profissionais" - nada mal se ele não tivesse transmitido o e-mail com cópia (aberta) para outras seis, sete editoras.
Outra que relaciono entre as piores foi quando fiz a primeira pergunta desse artigo e o rapaz me respondeu tranqüilamente:
- Sim, claro, acompanho
100 Balas mensalmente - seria muito legal caso o mencionado título não fosse uma publicação da
Opera Graphica.
Realmente os editores são complicados, mas, assim como os artistas, eles também "se dão" o direito de serem egocêntricos. Não estou fazendo nenhuma crítica, só estou dizendo que as pessoas têm o direito de se sentirem únicas e de se valorizarem. Pelo menos eu penso assim e procuro ser respeitado e valorizado, principalmente pelo que produzo.
Sempre procuro dar atenção para os que me procuram, exercito a minha paciência freqüentemente, mas como gosto de tudo que publico e sou conhecido por ser realmente um fã de quadrinhos, a
Brainstore é minha "menina dos olhos". Por isso, sempre espero que alguém que venha me apresentar um projeto conheça o que eu faço e não esteja fazendo isso simplesmente por questões profissionais, mas sim por afinidade com a linha editorial. Em casos como os que eu mencionei, fica difícil não perder a linha.
Outra coisa que ocorre com freqüência é o artista se apresentar em meio a um evento ou um coquetel de lançamento.
- Quero ver o seu trabalho, me mostra o seu
portfolio! - digo.
- Não tenho nenhum aqui... - perde a chance o desenhista.
Ilustrador que se preze anda sempre com um
portfolio debaixo do braço, principalmente os novatos e os que estão procurando trabalhar profissionalmente no meio. É claro que, quando me encontro com o
Ziraldo, não preciso ver nada dele para saber quem ele é, mas o "João da Silva" que nunca publicou precisa ter uma amostra do trabalho em mãos e, de preferência, com cópias na pasta que possa deixar com o editor caso ele peça e sempre com o nome, telefone e e-mail no verso do desenho para contato. Assim como eu, que sempre tenho alguns cartões de visita no bolso e carrego comigo algumas revistas na minha bolsa. Embora eu não tenha anunciantes em minhas revistas, sei lá quando eu vou encontrar com algum anunciante potencial, não é mesmo?
Semana que vem falarei mais sobre esse assunto. Até lá!
Ilustração de Mauricio Melo