Shows imperdíveis que eu perdi - Parte 1

Por André Mansur — Terça, 3 de fevereiro de 2004

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Na coluna passada, fiz um comentário sobre o fato de eu ter perdido a única vinda, até o momento, do Kraftwerk ao Brasil. No dia, estava rolando uma festa em minha casa e, quando passou, ao vivo, uns trechos na televisão, trocamos o som do aparelho pelo da tv e nunca fiquei tão puto por estar em casa. Lembrando desse dia, me dei conta de que já perdi vários outros shows no Rio, de bandas legais, e muitas vezes por simples desleixo. Partindo daí, fiz uma lista de shows perdidos que não leva em consideração ordem cronológica, mas sim, lembranças de uma memória já há muito deteriorada.

O pior de todos foi o do Nirvana. A banda tinha acabado de lançar, um mês antes, Incesticide, coletânea de “sobras”, lados B de compactos e registros que antes só constavam em demos.


Era verão, fazia um calor da porra. Eles haviam se apresentado uma semana antes em São Paulo, tocando versões de músicas do Clash, Duran Duran, Kim Wilde e não lembro mais quem. Já no Rio, após uma tentativa de suicídio que fez a produção tirá-lo do Othon Palace e colocá-lo num hotelzinho de quinta categoria – pois era o único que possuía quartos no primeiro andar, impossibilitando-o de se jogar da janela – Kurt não quis atender ninguém da grande impressa e mandou chamar apenas fanzineiros para dar entrevistas. Depois de uma pilha que o João Gordo pôs nele sobre as armações da Vênus Platinada, Kurt bagunçou com o show, cuspindo e esfregando o pau nas câmeras. Foi a primeira vez que eles tocaram Heart-Shaped Box ao vivo, com o Kurt gritando em plena Apoteose: “eu queria comer o seu câncer”. Fim-de-semana histórico. E o trouxa aqui perdeu. Aí está uma banda que eu nunca verei ao vivo. Sinto até uma pontada no peito quando penso nisso.

Outro show clássico que eu perdi foi o do Jesus & Mary Chain, no Canecão. Na época, quando a apresentação foi anunciada, eu não levei fé que rolaria, achava improvável demais. Mas teve. E eu perdi.

Antes disso, quando comprei o Psychocandy, primeiro disco dos caras, em 1987 (o disco na verdade é de 85, eu que descobri com 2 anos de atraso), não entendi nada. Achei que a agulha do toca-discos estivesse quebrada – aliás, soube de várias outras pessoas que tiveram a mesma experiência. Aquilo era muita chiadeira para um garoto de 12 anos. Pensei inclusive em voltar na loja e trocar por outro LP. Aos poucos, fui assimilando e hoje considero um dos 5 melhores discos de todos os tempos da música pop. Era Velvet Underground com Beach Boys, ou seja, canções pop, acidez, clima soturno e muita, mas muita microfonia, fazendo um paredão ensurdecedor que só fazia sentido real se ouvido com o volume no talo.

O show foi precisamente em 29 de junho de 1990, segundo um amigo meu que tem o canhoto do ingresso até hoje guardado.

Numa noite qualquer de 93, eu havia marcado uma saída com uma menina que eu acabara de conhecer. Disse que seria legal, ela iria se divertir pacas, ver uma galera diferente da que ela andava, abrir novos horizontes e tal. De nada adiantou; pizzaria marcada, lá fui eu. Só que a mentecapta não apareceu e eu me sinto uma besta até hoje por essa noite. Eram os Ramones, e eu não fui ao show.


Tudo bem, eles tocaram aqui várias outras vezes (inclusive anteriormente, em 1987, no Circo Voador), mas quem foi a todos sempre fala que esse foi o melhor. Uns malucos aqui da área, supostos carecas, soltaram uma bomba caseira no meio da apresentação e Joey não conseguia cantar de tanto que ria. Vi depois outros shows deles, mas àquele eu não fui. Isso que dá se apaixonar por patricinhas.

O extinto Imperator, teve em 96 os Beastie Boys. Não era a melhor fase do trio de branquelos. O clássico absoluto Licensed To Ill já chegava aos dez anos ainda como um grande disco. O trabalho posterior, Paul’s Boutique (feito em parceria com os Dust Brothers), foi talvez o último suspiro de criatividade do grupo. Depois, eles só se repetiram nos outros trabalhos. Mas, ainda assim, dizem que foi um grande show. E, bem, você sabe, eu não fui.

Certa vez, ouvi um burburinho aqui na esquina de casa e, de passagem, não dei importância. No dia seguinte descobri que era o Bloco Vomit tocando.

Puta merda, os caras vieram da Escócia e tocaram aqui em Niterói num lugar tão improvável que, claro, não assisti! Foi em abril de 2000.


Na verdade eles vieram ao Brasil para tocar no Abril Pro Rock, em Recife, e acabaram passando pelo Rio, Niterói e São Paulo. A banda, composta por dez beberrões que se revezam nos vocais, gravou dois álbuns interessantíssimos, lançados pela Trama. Never Mind The Bossa Nova e Play This Ya Bastard surpreendem pela mistura de maracatu com punk. Ok, você já deve estar cansado deste papo de regionalismo, mas as versões que eles fizeram para clássicos punks como Should I Stay or Should I Go (The Clash), Something Else (Sex Pistols) e California Über Alles (Dead Kennedys) são impagáveis – ainda que executadas de forma mambembe. Mereciam mais atenção.

Agora, uma coisa que eu não farei nunca mais é deixar de ir a um show porque no dia seguinte terei um compromisso. Vamos combinar uma coisa: ninguém será menos responsável por isso, acredite. Já aconteceu comigo e tenho um grande arrependimento por ter deixado a razão conduzir a escolha. Foi há 5 anos, na festa Loud!, do Cine Íris. O show era do Einstürzende Neubauten, banda verdadeiramente industrial, na mais completa acepção do termo. Latões, correntes, chapas de metal espancadas por martelos, baldes de brita jogados dentro de um enorme funil de ferro, furadeiras, liquidificadores. Soma-se isso a uma guitarra distorcida ao máximo e um maluco, Blixa Bargeld, esgoelando letras existenciais sobre morte e drogas, invariavelmente. Aliás, o Blixa já havia tocado por aqui com o Nick Cave, sendo um dos Bad Seeds que acompanham o cavernoso. Direto de Berlim para o Rio de Janeiro; e eu em casa porque tinha uma prova da faculdade no dia seguinte.

A Loud!, inclusive, já foi palco de outro show que merece ser listado aqui: o Stereolab. Música pop francesa anos 60, com deliciosos teclados moog, eletrônica alemã, levadas de jazz não convencionais – isso quando eles não ficam minutos mantendo a mesma nota, realçando as oscilações bruscas de tom – e um vocal feminino bem suave e impecavelmente melódico. Os que já conhecem o som vão me crucificar por essa tentativa de definição, mas para quem está chegando agora é mais ou menos isso mesmo que eu disse.

Curiosamente, segundo quem estava no dia, o Stereolab destilou todas as canções, cheias de vocais entrelaçados, sem comprometimento com a acústica do local – que é notoriamente conhecida por possuir problemas de reverberação durante as apresentações.

Nem lembro, na verdade, porque não fui a esse show. Mas, só pra justificar, sustentando-me em um consolo, eu gostaria de ter certeza de que eu estava fazendo algo realmente interessante naquele momento. Sinto-me melhor pensando assim.

O Lou Reed, por exemplo, tocou aqui no Rio em 1997. Não fui.


Mas não fui porque não o conhecia. Ou melhor; conhecia mas não “ligava pra ele”. Ouvia o Velvet Underground como a banda que influenciou praticamente tudo que eu curtia na época, mas não passava disso. Ou seja, sabia de sua importância, mas, ainda assim, não me afetava. Só fui realmente descobri-lo em carreira solo algum tempo depois. No final de 2000, ele pisou em São Paulo para uma única apresentação. Obviamente, não fui também.

O show do Iggy Pop, então, nem se fala; vai pelo mesmo prisma. Não gostava como hoje, daí tê-lo perdido. Ele veio em 88, no Canecão, divulgando o fraco, apesar de pungente, Instinct. Não dei a mínima pro "Iguana", passou batido. Na verdade, nem me lembro de anúncios desse show, pois só fui realmente conhecê-lo 6 anos depois. Atrasado, eu sei. Acontece.

Só pra fechar com a santíssima trindade, cito o David Bowie. Não lembro nem quando foi o show. Acho que no final da década de 80, enfim, isso não importa. O que importa mesmo é que eu curto muito o Camaleão, e não fui ao seu show. Droga.


Acabo de perceber que a lista é bem maior do que imaginava – isso porque estou considerando somente shows gringos e de rock. Tem muita gente ainda que falta ser lembrada. Na semana que vem, a coluna continuará (se minha memória der uma forcinha), a falar sobre outros shows imperdíveis que, infelizmente, esta besta que vos escreve perdeu.




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