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Há uma nova ordem no cinema?
Por Rodrigo Cotrim — Quinta, 29 de janeiro de 2004
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Tenho diversos amigos que me julgam terrivelmente por gostar de filmes ditos alternativos. Dizem que são “cabeça”, “excêntricos” e sempre se utilizam da expressão “cinema cult” para se referirem aos filmes que, obviamente, se encontram fora do circuito pipoca. Mas o que tem nestes filmes que tanto prende a minha atenção e daqueles seres esquisitos que visitam espaços culturais?
Conteúdo, basicamente...
Com essa afirmação, não nego em absoluto a existência de conteúdo nos filmes mais “empacotados”, até porque qualquer roteiro precisa se sustentar em alguma coerência - os que não conseguem, são considerados filmes ruins, seja americano, brasileiro ou marciano. O que coloco em discussão é o preconceito que esses filmes mais densos despertam em muitas pessoas.
Desnecessário...
Entendo que muitos preferem somente assistir a histórias surreais, fantasiosas, cheias de reviravoltas mirabolantes e finais felizes, mas temo que a capacidade de auto-análise, de percepção seja substituída por uma espécie de “condicionamento de valores”. Explico: filmes são excelentes fontes de mensagens subliminares. Sem perceber, reproduzimos pensamentos, questões e até falas, estimulados por algum personagem ou situação retratada na tela grande. Por que, então, a maioria entende como correta a reprodução de comportamentos produzidos por uma distorção surtada da realidade a uma reflexão mais pontual da nossa realidade?
Não entendo...
Cada filme tem uma estrutura, uma motivação inerente à própria concepção do autor do roteiro, do entendimento de como essa mensagem será contada pelo diretor... Sem contar com a contribuição dos atores, universos paralelos que são o espelho da história, o acontecer do filme. É preciso respeitar toda essa lógica.
Aceito que a proposta de cada um nessa vida seja fruto de uma escolha absolutamente individual dentro de um contexto social, cultural, inclusive. No entanto, é importante respeitar aqueles que gostam de rebuscar um pouco mais a vida, aqueles que preferem investigar, sentir, viver mais do que simplesmente imaginar ou sonhar com um mundo irreal, fantasioso, manipulado e solitário. Minha intenção não é a de atirar pedras em filmes que não fazem parte desses circuitos culturais, muito pelo contrário, e sim a de criar uma discussão sobre a possibilidade de entendimento, de diálogo entre essas linguagens: a de massa e aquela mais restrita.
Posso afirmar, com toda tranquilidade, que esse apartheid cultural está mudando. Fotografando o circuito da semana, por exemplo destaco 21 gramas, Encontros e desencontros e Matrix Revolutions. São filmes que saem um pouco do estereótipo e mesclam ficção surreal com reflexão filosófica. Bacana esse movimento da indústria...
O que mais me excita é que a indústria, sendo uma grande empresa de marketing, investe onde tem demanda. Se esses filmes estão sendo produzidos em quantidades cada vez maiores, e tendo uma aceitação significativa, é que o público está cada vez mais exigente, mais reflexivo, mais tolerante.
Bravo!
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