Deus é brasileiro

Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 29 de janeiro de 2004

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A esta altura do campeonato, todo mundo já sabe que o filme Cidade de Deus foi indicado a quatro Oscars, o prêmio mais importante do cinema mundial.

Dessa vez, a grande novidade não está apenas no número de indicações (aliás, bastante expressivo) mas também no fato do filme disputar categorias "de verdade", saindo daquele gueto étnico reservado aos filmes de língua estrangeira e indo brigar cara a cara com os pesos pesados de Hollywood, disputando as estatuetas de melhores diretor, fotografia, montagem e roteiro adaptado, simplesmente algumas das mais importantes da competição.

Ninguém aqui no SoBReCarGa discute que Cidade de Deus merece ganhar pelo menos um desses Oscars, mas a grande questão é: será que precisa ?

Eu acho que sim. E explico...

Tudo bem que tem muita gente (eu inclusive) que considera o Oscar como uma imensa ferramenta de marketing, destinada a dar força a filmes que já estão perdendo o fôlego ou pedigrée àqueles que ainda vão ganhar o mundo.

Mas mesmo assim, essas indicações para o Cidade de Deus são a prova de que os filmes nacionais podem estar finalmente conquistando um espaço importante na máquina do cinemão, o que pode garantir carreiras internacionais para nossos atores e diretores, mais espaço para nossas produções em todo o mundo e, lógico, mais força para o cinema brazuca, até mesmo aqui dentro.

Pensem bem: Fernando Meirelles já pisa no tapete vermelho com o status de "indicado ao Oscar". Ganhando ou não, a partir de março e com o agente certo, o cara dirige o que quiser em Hollywood...

Outra coisa importante a se perceber é que não se trata de um fato isolado, mas sim de uma tendência da Academia, que vem abrindo cada vez mais espaço aos filmes estrangeiros, tornando o Oscar uma entidade verdadeiramente multinacional. Basta lembrar que nos últimos anos, outros filmes não-americanos receberam indicações importantes. Foi assim com o italiano A Vida é Bela, o "chinês" O Tigre e o Dragão e os últimos espanhóis do Almodóvar. Em 2004, foi a vez do Brasil.

Ao que parece, Hollywood está em franca campanha para englobar outras cinematografias importantes e tradicionais do mundo ao seu universo brega de tapetes vermelhos, vestidos caríssimos e piadas sem tradução. E o Oscar vai se tornando cada vez mais uma versão mais bombada e cafona de premiações tradicionais como Cannes ou Veneza.

Muita gente argumenta que não devemos pautar a nossa produção cinematográfica pelos padrões dos EUA, que o Oscar não deveria representar nada para nós e que isso e aquilo...

Infelizmente, não se pode ignorar que os EUA dominam o cinema mundial, seja na produção de filmes, na distribuição ou até mesmo na exibição deles, já que nos últimos anos assistimos à expansão das grandes cadeias multinacionais de multiplexos, como UCI e Cinemark, especialmente na América Latina.

Por isso, quando os críticos e cineastas brasileiros reclamam do frisson e da euforia em torno do Oscar, eu confesso que sinto uma pontinha de recalque.

Uma coisa é não gostar da cerimônia, não ter saco para os discursos bobocas, não rir das piadas do Steve Martin ou do Billy Cristal. Outra coisa bem diferente é menosprezar o que um Oscar pode representar comercialmente para um filme nacional.

Não se trata de depender da chancela ou da aprovação de Hollywood para considerarmos um filme bom ou ruim. Cidade de Deus é um ótimo filme, claro. Se ganhar um Oscar, vai se tornar um filme melhor? Claro que não. Mas certamente será um filme melhor visto, o que não dá para se desprezar.

Tentar diminuir o que um Oscar pode representar para um filme, me parece, despeito demais e objetividade de menos. É como dizer que a Copa do Mundo não representa nada pois a seleção de 82 era claramente melhor que a de 94.

No mundo real, os tetracampeões sempre serão o Romário e o Parreira, e não o Zico e o Telê.

P.S: Arriscando um palpite, a única categoria onde de início não há chance alguma de vitória é a de melhor diretor. Já nas disputas de montagem, fotografia e roteiro adaptado, Cidade de Deus pode sim trazer o carequinha dourado e pelado para o Brasil.




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DVD > DVD Nixon (Bob Hoskins, Anthony Hopkins, Oliver Stone, Ed Harris, Joan Allen, Powers Boothe)
DVD > DVD Perdidos Na Noite
DVD > Coleção James Dean- 7 DVDs (James Dean)
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