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Concreto: Um quadrinho nada abstrato
Por Rafael Lima — Quarta, 28 de janeiro de 2004
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Dois amigos são seqüestrados por alienígenas ao saírem para acampar nas montanhas e, depois de passarem pelas experiências deles, ganham rígidos corpos de pedra. Um deles consegue fugir; o outro se perde na explosão do esconderijo onde estavam. Partindo desse mote, de uma improbabilidade digna de roteiro de filme B, Paul Chadwick construiu um dos personagens mais bem desenvolvidos dos quadrinhos: Concreto.
Não é de estranhar que tenha demorado a ser publicado; é difícil enquadrar Concreto (www.weisshahn.de/concrete) num gênero: tinha ficção científica, mas explorava demais os sentimentos dos personagens para ser enquadrado como tal; tinha os poderes extraordinários e a identidade secreta de um super-herói, mas faltavam-lhe capa, uniforme e super-vilões; tinha um viés de aventura clássica, mas contraposto por um realismo que ancorava os pés no chão. E, como se fosse pouco, era completamente autoral: escrito, desenhado (inclusive as capas) e produzido pelo mesmo faz-tudo. Ou seja, o tipo de projeto bom para deixar editores em desconforto. Felizmente, estávamos na década de 80, ótimo período para esse tipo de obra, e Concreto veio à vida em berço esplêndido pela Dark Horse Comics.
Inicialmente publicado em título próprio (www.chivian.com), Concreto acabou tendo o mesmo fim que a maioria dos títulos autorais: encerrado por falta de pique do autor. Entretanto, enquanto durou, esse pique foi suficiente para produzir 10 números da revista (www.continuitypages.com), hoje encadernados no volume The Complete Concrete Stories, novamente pela Dark Horse. As primeiras 4 edições desses 10 números foram publicadas no Brasil no começo da década de 90 pela Toviassu, a editora da Casseta Popular.
Apesar de não ter criado o personagem com a intenção de estrelar histórias curtas, Paul Chadwick produziu um punhado delas, a maioria na antologia Dark Horse Presents, hoje colecionadas nos dois volumes de Concrete Short Stories. Desde então, concentrou-se em histórias mais longas, apresentadas sob forma de mini-séries, como Fragile Creature ou Think Like a Mountain.
O que faz de Concreto um personagem à parte é a maneira como Chadwick escolhe e trata os temas de suas histórias; é brilhante na adequação do tom utilizado e no cuidado com que constrói as tramas. Por exemplo, na origem do personagem título: Ron Lithgow era um pequeno burocrata, redator de discursos de um senador norte-americano, com um desilusão amorosa no currículo e um gosto por romances de aventura (Stevenson, Verne, Defoe) antes de receber seu corpo de pedra alienígena. Subitamente, um sujeito assim meio apagado, quase um loser, vê-se dotado de capacidades sobrenaturais - e o conflito de "grandes responsabilidades virem junto de grandes poderes" é explorado de uma maneira muito mais consistente do que o herói que ficou famoso por ele, o Homem-Aranha.
Tem mais: desorientado com o novo corpo, Ron pede ajuda a seu amigo senador, fornecendo material para uma discussão sobre política, sobre como o governo lida com os impostos do cidadão (para abafar o caso dos alienígenas, divulga-se à imprensa que ele era fruto de pesquisas militares) e sobre os mecanismos de manipulação da opinião pública (para conquistá-la, programam-se aparições de Concreto nos principais talk shows e capas de revistas).
Mas Paul Chadwick consegue ir além na sutileza com que explora os assuntos. Por exemplo, não deixa passar de graça o fato de que, em seu novo corpo (tal como qualquer personagem infantil de Disney que não use calças), Ron Lithgow perdera seu órgão sexual, e explora a frustração que ele sente por, apesar de poderoso & popular, não poder aproveitar essas vantagens: Concreto decora as paredes de sua casa com obras de arte erótica e nutre uma paixão secreta pela bióloga designada pelo exército para analisá-lo, mas não pode realizar seus desejos.
Ao situar sua residência em Los Angeles, Chadwick abre espaço para comentários sobre a indústria do entretenimento, a super-exposição na mídia, os enganos a que as aparências conduzem - e, nas entrelinhas, traça um retrato cuidadoso da cidade, as enormes avenidas entupidas por mansões ajardinadas, a ausência de pedestres nas ruas (quando existem, são sempre tipos esquisitos), o mau gosto arquitetônico e decorativo.
Talvez o melhor comentário que eu tenha lido até hoje sobre Concreto é o que diz que, apesar de ele tentar façanhas extraordinárias, como atravessar um oceano a nado, ou escalar montanhas impenetráveis, a sensação de quem lê suas histórias é a de se estar lidando com uma história habitual, que poderia estar acontecendo ali na esquina, tal a maneira como as histórias são conduzidas com os pés no chão. O título que não nega o nome que tem.
A arte de Paul Chadwick nada deixa a dever aos roteiros; há excelência nos detalhes, advinda do uso das referências fotográficas; há diagramações ousadas, abusando das linhas curvas para dividir os quadros, e há uma deliciosa obsessão visual do autor, a interface água-ar na superfície de lagos ou mares, que transforma cenas outrora banais em imagens deslumbrantes.
Chadwick é daqueles autores que assumiram tal domínio sobre seu estilo a ponto de permiti-lo absorver influências, e não copiar, a regra no mercado de quadrinhos. A história Killer Smile foi toda desenhada na linha dos jogos de preto e branco de Frank Miller em Sin City - mas não há dúvida de que é Chadwick desenhando.
Concreto é a HQ de uma vida, a que Paul Chadwick sempre quis fazer - e fez.
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