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As novelas que a gente gosta
Por Alexandre Maron — Quarta, 28 de janeiro de 2004
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O brasileiro urbano, medianamente americanizado, costuma ignorar (ou odiar) as novelas como Celebridade ou Mulheres Apaixonadas. Obras como essas fazem todo latino-americano que encontra um brasileiro perguntar sobre o destino dos personagens, como se todo brasileiro visse as novelas da Globo. Eu até me orgulho de ver o sucesso de nossa produção e fico meio impressionado quando vejo como a gente não enxerga isso. Mas é do conceito da novela, dos personagens que são acompanhados dia após dia, capítulo após capítulo, que surgiram alguns dos mais adorados seriados de TV e histórias em quadrinhos. Esses, sim, amados pela nossa geração e grupo social.
Novela é o termo em português para se referir ao que, nos Estados Unidos, ainda na era do rádio e mesmo depois nos primórdios da TV, eram as soap operas. O nome é esse porque durante anos esses programas foram patrocinados por marcas de sabão em pó e detergente.
A essência da idéia é dar continuidade a uma obra ficcional. Assim, Stan Lee revolucionou os quadrinhos quando tornou essa continuidade um ponto de honra em suas revistas. Assim, o Quarteto Fantástico e os personagens da Marvel que se seguiram tinham suas vidas acompanhadas passo a passo.
No caso do Homem-Aranha, a grande inovação nem foi a continuidade, mas sim a humanidade do personagem que vencia os maiores inimigos e seguia tomando porradas sem fim das agruras do cotidiano. Mas o importante é que, com a continuidade, o público se envolve de um jeito diferente. Realmente se importa com os personagens.
Vi diversas séries quando era moleque. Gostava de Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar e Jornada nas Estrelas, mas todos esses programas me incomodavam muito porque, no fim, tudo tinha que acabar como começou para que a emissora pudesse exibir os episódios na ordem que bem lhe conviesse.
Básico, né? Os executivos produzindo coisas que interessam a eles, e não a nós, espectadores. Mas é assim mesmo. Duas séries me chamaram a atenção nem por suas qualidades, mas principalmente por seus personagens recorrentes: O Homem do Fundo do Mar e Buck Rogers. Ali, os vilões reapareciam em diversos episódios e os personagens faziam referências aos seus encontros anteriores. Achei o máximo e isso marcou minha memória da infância.
Mas o que definitivamente me fisgou foi a ótima O Homem da Máfia, título idiota que a Globo botou em Wiseguy. A série mostrava um agente do FBI que se infiltrava em organizações criminosas. A cada X episódios, o herói, Vinnie Terranova, arrumava uma nova enrascada pra se meter e, como ser humano, se envolvia com as pessoas que era pago para entregar à justiça. Perfeito.
Outro exemplo de seriado que pegou a onda da continuidade e se deu bem foi Barrados no Baile. Hoje, todo mundo fala mal, mas uma geração inteira curtiu as peripécias de Brandon, Brenda e sua turma. A série durou dez anos e fez sucesso mundial.
Hoje, as melhores séries costumam começar com episódios que funcionam sozinhos, enquanto formam seu público, mas logo que sentem que decolaram, partem para histórias que se estendem por diversos capítulos ou por todos os 20 a 22 episódios de uma temporada.
Ou radicalizam o conceito e se tornam a ganhadora do Globo de Ouro deste ano: a excelente, emocionante, eletrizante 24 Horas (veja nosso especial), onde, mais do que contar histórias entrelaçadas, mostra-se uma única grande história ao longo de 24 episódios que se passam em um dia.
É quase uma novela. A Globo até está exibindo diariamente. Mas dessa, a gente gosta.
* * *
E aproveitando que a coluna saiu atrasada e deu tempo de conferir as indicações ao Oscar deste ano...
O Oscar e a obsessão brasileira pelo sucesso
Segundo a Folha, Fernando Meirelles estava em seu escritório em Londres trabalhando calmamente quando recebeu a notícia de que tinha sido indicado ao prêmio de diretor. Na entrevista que deu ao jornal, Meirelles tenta segurar a onda. Minimiza os efeitos da indicação, faz piadas e diz que Cidade de Deus é uma zebra. Uma tentativa louvável de evitar que o hype do Oscar destrua sua carreira em franca ascensão. Mas, cá entre nós, porque diabos somos tão obcecados por ganhar o Oscar?
Seria nossa necessidade de ser aprovados por quem julgamos os mestres do negócio de fazer cinema? Só quando a indústria americana der sua chancela ao nosso cinema vamos entender que temos, sim, gente no Brasil capaz de fazer filmes bacanas com valor comercial indiscutível?
A despeito do forte jogo de bastidores que deve ter gerado essas indicações, o que importa é que Cidade de Deus está tendo um sucesso justo e tem chances de ganhar pelos menos uns dois Oscars, em edição e fotografia. Meirelles tem mesmo poucas chances de sair da festa com uma estatueta de melhor diretor ou mesmo de roteiro. Ganhar alguma coisa não vai ter nada a ver com a nossa torcida, mas com o reconhecimento de um trabalho bem feito e de um filme muito acima da média.
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