Quando eu escrevi a CMYK de 22 de outubro, dei destaque para Ricardo Riamonde, referi-me também a alguns coloristas com os quais eu já havia discutido muito sobre colorização de HQs, e não mencionei Hermes Tadeu, recentemente muito comentado pela colorização das capas de Hulk, desenhadas por Mike Deodato Jr (clique nas imagens para ampliá-las).
Não me referi ao Hermes porque, de fato, nunca havia parado para discutir com ele, nem mesmo quando ele coloriu duas ilustrações feitas por Luke Ross e Fábio Laguna para um projeto nosso com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e "as três meninas" para um projeto erótico de Laudo Ferreira Jr. O primeiro permaneceu inédito, o segundo foi parcialmente utilizado. Não discutimos porque não havia o que discutir. O que eu vira de Hermes desde 1997 era somente evolução. Um cara altamente preocupado em aprender sempre, em fazer o melhor. A cada novo trabalho que ele apresentava, uma surpresa: estava melhor que o anterior.
Em 1997, Hermes veio de Sorocaba, interior de São Paulo, para apresentar-me seu
portfólio e discutir comigo sua história, que havia sido selecionada para a revista
Metal Pesado, da qual eu era editor ao lado de
Álvaro de Moya. A história de cinco páginas intitulada
Don't Give Up chamou-me a atenção não pelo roteiro - o texto final acabou reescrito por mim -, mas, sim, pela arte. Hermes, na época com apenas dezoito anos, empregara técnica mista (grafite, lápis de cor, aerografia) com muita habilidade. Essa história, a primeira de Hermes Tadeu, em nível profissional, foi publicada em outubro de 1997 na
Metal Pesado #5.
Ainda sob a minha direção, participou do calendário
Metal Pesado 1999, na produção de cores das artes de Luke Ross, Manny Clark e Fábio Laguna. Depois disso, na correria do dia a dia, pouco o vi, mas ele continuou trabalhando bastante. Coloriu
cards da coleção
Arquivos Secretos, da editora Abril, e capas das revistas
HQ Express, da Via Lettera editora. Recentemente, era o responsável pelas cores de
Conan - O Bárbaro e
Tex, da Mythos editora, para a qual também colorizou
Guerras Mys-Tech e
Vampira, entre outras.
Na Panini, recoloriu a capa de
Hulk: Futuro Imperfeito. Hermes também coloriu a história
Elipses, com os personagens
Cão e Gata, para o primeiro álbum da
Fábrica de Quadrinhos, lançado pela
Devir. Trabalhando muito, muito mesmo, dedicou-se ao trabalho de colorização digital, e estava ganhando espaço. Comenta-se no meio editorial que o próprio Deodato Jr. o escolheu para colorir suas capas para a revista
Hulk e, recentemente, depois de um teste simplesmente sensacional, passou a colorir também o miolo.
Hulk #70 está pronto para ser lançado totalmente colorido por Hermes Tadeu.
Quando um artista aprende a lidar com o computador, tudo é mais fácil - o mais difícil, para não dizer impossível, é fazer de um técnico um artista. Apesar de muito novo, ele aprendeu primeiro "na unha" para depois usufruir dos benefícios da tecnologia moderna. Isso fez dele um grande destaque, e ele caminhava para o seu "descobrimento".
Hêr-mes - era assim que, brincando, pronunciávamos o seu nome, devido ao seu sotaque típico do interior paulista, que ele não fazia questão de perder -, com apenas 25 anos de idade, foi assassinado no dia 21 de dezembro de 2003, quando um assaltante disparou um tiro certeiro em seu peito ao tentar roubar sua máquina fotográfica.
Sinto não ter conversado com ele o tanto que eu poderia. Maldita correria!
Tchau!