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Só pode haver um!!
Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 22 de janeiro de 2004
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A gente vai ver um filme, acha ele o máximo; vai ver de novo, comenta com os amigos, a família. Logo, logo, temos um sucesso de bilheteria. Depois, toda aquela grana enche os olhos do estúdio e alguns anos depois, pimba: lá vem a continuação.
Em alguns casos, a coisa toda funciona muito bem e o filme nº 2 até supera o primeirão. Quer um exemplo? Toy Story. Ninguém discute que o primeiro é fantástico, mas todos concordam que o segundo é ainda melhor, certo?
Mas a grande questão é: porque será que muitas continuações não estão à altura do original?
Na maioria dos casos, isso tem muito a ver com um tal de Joseph Campbell, do qual já falei outro dia por aqui, na coluna: heróis descartáveis.
Esse senhor, aliás um senhor mitólogo, em seu livro O Herói de Mil Faces, popularizou o conceito da jornada mítica do herói, uma espécie de "mãe de todas as histórias". Ela narra o trajeto de um herói que, saindo de um estado de inércia em um mundo cotidiano, recebe um chamado à aventura, encontra um mentor, atravessa um portal e penetra no mundo subterrâneo, onde enfrenta uma série de provas e testes, antes de poder confrontar o inimigo e conquistar o prêmio, para enfim retornar ao mundo cotidiano, transformado pela experiência.
Se você, caro leitor, parar por um momento para destrinchar mentalmente alguns dos últimos sucessos do cinema, vai acabar percebendo uma certa similaridade com esse modelo. Sabe por quê? Porque faz tempo que Hollywood descobriu a "jornada mítica do herói" e faz tempo que aplica esse modelo para criar seus roteiros.
A saga de Luke Skywalker no primeiro (ou quarto?) Star Wars é um dos maiores exemplos de uso da "jornada mítica" no cinemão americano e por isso é citada em 11 em cada 10 livros sobre "como escrever roteiros".
O negócio é tão sério que Christopher Vogler escreveu o livro A Jornada do Escritor, onde detalha o conceito de Campbell, contextualizando sua aplicação no cinema e contando sua experiência de muitos anos como analista de roteiros, onde a utilizava como modelo para avaliar as histórias que recebia. Muitas delas, obviamente, viraram grandes sucessos de público e crítica. E, obviamente, geraram algumas continuações.
Mas qual o problema?
Ora, nenhum. O único inconveniente é que a jornada mítica campbelliana é um ciclo fechado. E como vocês (e o Peter Jackson) bem sabem, toda jornada que se preza tem um início, um meio e o mais importante de tudo: tem um fim muito bem determinado.
Logo, qualquer continuação parte sempre de um ponto morto, onde o ciclo daquele herói teoricamente já se encerrou. Para criar uma nova história, é preciso antes de mais nada criar um novo chamado à aventura, uma nova jornada e isso nem sempre é possível, aceitável ou plausível.
Como você já leu por aqui no SoBReCarGa, esse foi um grande problema no desenvolvimento de Shrek 2. Os personagens são bons, ninguém duvida, mas a história deles já foi contada. Isso não quer dizer que o segundo filme vai ser ruim, mas a verdade é que os roteiristas já começam num tremendo prejuízo. Afinal, esse filme nós já vimos, o ogro já se casou com a princesa, que era na verdade uma "ogra" (se é que esse termo existe!). Será que eles vão conseguir criar outra história para os mesmos personagens que seja tão redondinha? Só o tempo dirá...
Por isso, quando Neo se torna finalmente "O Escolhido" e parte voando para destruir a Matrix (no fim do primeiro filme), seu ciclo como personagem (ou como herói, se preferirem) já se esgotou. E é por isso também que quando Connor MacLeod derrota Kurgan e conquista o prêmio, a história do Highlander deveria ter terminado (apesar dos executivos e do Christopher Lambert pensarem o contrário). Por isso, tiveram de inventar um outro MacLeod para o seriado de TV, senão não teriam como criar novas histórias.
E o que acontece quando não se consegue renovar o herói e nem criar uma nova jornada convincente para ele? Bem, é aí que as continuações acabam ficando fracas, forçadas, incômodas e algumas vezes até desastrosas.
É por isso que muitos filmes, ao invés de continuações acabam gerando "seqüelas".
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