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Frank Miller essencial
Por Rafael Lima — Quarta, 21 de janeiro de 2004
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Se a profusão de editoras disputando público no mercado atual de quadrinhos - Mythos, Panini, Brainstore, Pandora Books – ainda não agiu para abaixar os preços, certamente aumentou a variedade de títulos e formatos nas prateleiras, sobretudo em relação aos tempos do binômio Abril Jovem-Globo.
Além das edições nacionais saírem muito mais rápido (Liga da Justiça versus Vingadores e DK2 foram publicados quase simultaneamente com os EUA), várias raridades têm sido republicadas. Entre eles, o assunto desta coluna: Os Maiores Clássicos do Demolidor, de Frank Miller.
Quando Jim Shooter promoveu Miller a desenhista do título, no finalzinho dos anos 70, o personagem estava desacreditado e sem público; era editado bimestralmente, tinha até bons roteiros de Roger McKenzie, mas tudo indicava que seria cancelado. Miller tinha recentemente se mudado para Nova Iorque, era muito jovem e começou a dar pitacos nas idéias de Roger, bons a ponto de ele vir a ser creditado como co-autor, e, em seguida, assumir os roteiros.
A publicação da Panini Comics é feita em cima da edição original, chamada Marvel Visionaries (visonários), que republicou todas as histórias do Demolidor desenhadas por Frank Miller, ao longo de 3 volumes. Os dois primeiros volumes nacionais estão contidos no segundo volume de Visionaries, a partir de quando Miller toca os roteiros. As cores originais e remasterizadas foram mantidas, e há reproduções das capas das revistas onde as HQs saíram; a tradução e a letras foram completamente refeitas.
No Brasil, sua primeira publicação se deu na revista SuperAventuras Marvel, 20 anos atrás, em formatinho, com as cores refeitas, tradução truncada (a redução do formato limitava o texto dos balões) e até páginas cortadas. Ou seja, pela primeira vez está sendo possível travar contato com as histórias que tornaram Frank Miller um mito, do modo como apareceram. É uma coleção de se levar para ilha deserta, de se salvar em caso de incêndio.
O primeiro grande mérito de Miller é ter revitalizado o Demolidor: fixou sua residência em Nova Iorque, bolou inovadores e criativos usos para os sentidos super-aguçados, eliminou vilões espalhafatosos, desenvolveu coadjuvantes - inserindo humor com “Foggy” e o capanga Tucão, drama romântico com Heather, política e corrupção com o Rei do Crime - enfim, contextualizou-o corretamente.
O segundo grande mérito foi ter introduzido personagens de natureza absolutamente alheia ao meio urbano - ninjas - sem causar estranhamento: Kirigi, a ordem do Tentáculo (The Hand, no original), o mestre Stick e, especialmente, Elektra, que atrairia leitores e leitoras a rodo (uma delas, Diana Schutz, se tornaria editora da Dark Horse Comics), levando o título para periodicidade mensal. O terceiro e mais notável mérito foi o de ter inventado um modo de narrar em quadrinhos dinâmico, sombrio, curto e grosso, que estabeleceria um padrão de referência ainda na década de 80, gerando um filho pródigo: as Tartarugas Ninja.
Miller removeu as piadinhas típicas do Homem-Aranha; seu humor era cortante, mordaz, quase negro. Ocupou o espaço vazio com vastas áreas negras, simplificando os fundos e criando um clima sombrio e pesado, incomum à explosão de cores tradicional nas HQs de super-heróis. Aproximou os roteiros do estilo policial, com narrativa em primeira pessoa, texto enxuto e diretos, distanciando-se das redundâncias barrocas de Chris Claremont e da verborragia poética de Alan Moore.
Depois de algum tempo livrou-se do desenho, passando a bola para Klaus Janson, a quem fornecia apenas lay-outs. Bolou novas formas de diagramação, multiplicando o número de quadros por página, retalhando-a em tiras horizontais ou verticais - sua marca registrada. Utilizou efeitos cinematográficos para manipular as emoções do leitor, emulando drama, medo, tensão, expectativa, ternura. Criou cenas de luta memoráveis, com ação explosiva e violência realista – Miller parecia escolher sempre os pontos de vista mais expressivos, fosse numa conversa num restaurante, fosse numa luta com adagas.
Duas histórias merecem escrutínio com lupa no segundo volume de Os Maiores Clássicos, ora nas prateleiras: as dos números 177 e 179. Na primeira, o Demolidor perde seu "radar" e clama por ajuda de seu mestre ninja Stick, que o submete a um treinamento insano com arco e flecha. O cansaço leva-o a ter alucinações com pesadelos de seu passado, numa história meio onírica completamente passada dentro da cabeça dele. A segunda, mais do que o primeiro encontro do Demolidor e Elektra como francos inimigos, é do começo ao fim uma aula de ritmo, enquadramento, clima emocional. A seqüência inicial, em que o repórter Ben Urich encontra um informante numa sala de cinema e tem que testemunhar o assassinato dele por Elektra sem dar um pio, culminando num close de seu rosto, e a seqüência final, na qual ele procura um lugar para fugir da mesma Elektra, são extraordinárias.
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Depois, ele veio a escrever para Geof Darrow (Hard Boiled), Dave Gibbons (Give me Liberty) ou mesmo Bill Sienkiewicz; chegou mesmo a voltar ao Demolidor, com David Mazzuchelli no lápis. Fez roteiros para cinema e voltou aos quadrinhos nos anos 90 com a merecidamente celebrada e premiada Sin City, HQ quintessencial que ele nasceu para fazer. Mas na época do Demolidor ele já sabia tudo, e o fazia, em vinte páginas, todo mês. E nos especiais, botava uma edição de mais de 40 páginas nas bancas. Quem sofreu aguardando as dez páginas mensais do primeiro Sin City não acredita, mas é verdade.
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