Era uma vez uma rata

Por Rafael Lima — Quinta, 15 de janeiro de 2004

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Era uma vez um famoso quadrinista britânico à procura de um conflito para sua história. Era uma vez uma adolescente reclusa, com um especial apreço por animaizinhos. Era uma vez uma moça isolada e com dificuldades de se comunicar com os outros. Era uma vez um rato. Era uma vez The Tale of One Bad Rat, uma das melhores graphic novels já lançadas.

O quadrinista: Bryan Talbot projetou seu nome para o mundo com a mega-série As Aventuras de Luther Arkwright, onde misturava ficção científica, política e filosofia, iniciada em 1978, provavelmente, a primeira graphic novel inglesa digna desse nome. Luther levou Talbot a ilustrar The Nazz, Sandman e até o Batman, mas qualquer um sabe que o sonho de todo autor é escrever e desenhar suas próprias histórias, e ele estava à procura de uma: Bryan queria escrever uma história passada no Lake District, recanto onde passara férias na infância, adotado por inúmeros escritores do período do romantismo: Dr. Johnson, Shelley, Dickens, Turner e Beatrix Potter.

A adolescente: Beatrix Potter fora criada em reclusão, sob rígida disciplina na Era Vitoriana, tendo mesmo escasso contato com seus pais. Junto com o irmão, recebera educação em casa, através de uma tutora. Quando chegou a idade de ir para a escola, apenas ele foi mandado; Beatrix continuou trancada em casa, onde aprendeu a desenhar e compor música sob os auspícios da instrução particular. Na ausência de amigos, apegou-se a animais de estimação: coelhos, um cachorro, passarinhos. Entre os 15 e os 30 anos, manteve um diário particular escrito em código, completamente decifrado após sua morte. Gostava de escrever cartas para crianças valendo-se de animaizinhos para contar histórias e, por sugestão de um editor, acabaria transformando uma delas, The Tale of Peter Rabbit, em livro. O sucesso de vendas é estrondoso, torna-se autora de livros infantis cheios de coelhos, ratinhos, esquilos e ela acaba se mudando para Hill Top, uma casa em Lake District, local por cuja proteção ecológica lutaria na fase final da vida.

A moça: Helen Potter é uma sem-teto, cabelos cortados curtinhos, sentada diante de um cartaz pedindo comida numa estação do metrô londrino. Não se sabe muita coisa sobre ela; parece ter fugido de casa e demonstra uma grande dificuldade de relacionamento com as outras pessoas: seu único interlocutor é um ratinho de laboratório. A idéia original de Bryan Talbot era contar uma história passada entre as paisagens do Lake District, evocando as memórias de Beatrix Potter como citação. Helen fora criada para servir de paralelo a Beatrix, uma vida síncrona numa era distante – tal como as personagens de Virginia Wolf em As Horas - mas ainda faltava-lhe uma razão para fazê-la fugir de casa, em Londres, e seguir a trilha de Potter até o norte. E o motivo que ocorreu a Bryan foi: abuso sexual infantil.

Era um tema tão forte que acabou tomando conta de toda a história de The Tale of One Bad Rat, ao fim e ao cabo uma fábula sobre redenção, sobre os ritos de transição para a idade adulta, sobre a distância que há entre ficção e realidade, e para que a primeira serve. Fruto de aprofundada pesquisa nos temas principais que aborda – a vida de Beatrix Potter, a importância do Lake District, abuso sexual de crianças – One Bad Rat foi publicada originalmente pela Dark Horse Comics em 1995 e venceu o prêmio Eisner.

Pode-se incorrer no erro de achar que a história só alcançou repercussão por abordar um tema polêmico. Nada mais impróprio: One Bad Rat tem a qualidade das narrativas paralelas que se encontram no final; tem a qualidade das metáforas complexas, que permitem inúmeras interpretações: o ratinho é um alter ego para Helen, fazendo-a expor seus pensamentos para o leitor, mas também funciona como sua consciência, depois que ela o perde, quando reaparece em tamanho imenso.

Ratos também foram usados por Beatrix em seus livros infantis; ratos são comumente vistos como criaturas pestilentas ou aterrorizantes, apesar do valor que romanos, chineses ou indianos lhes atribuíram como mensageiros da sorte ou animais sagrados em outros tempos, contraponto semelhante entre o que há na idéia terrível que vítimas de abuso sexual têm de si mesmas antes e a idéia redimida, depois que livram-se do trauma. Só mesmo em Maus, aliás a única graphic novel mais procurada do que One Bad Rat no Reino Unido, os ratos foram tão bem explorados simbolicamente.

Tudo isso sustentado numa arte extraordinariamente realista, completamente feita sobre referência fotográfica, onde cada personagem foi decalcado da foto de uma pessoa real, onde há uma bela cena de fuga por Londres no primeiro terço e lindíssimas paisagens a aquarela no última. O cuidado com detalhes transparece no controle do ritmo de crescimento do cabelo de Helen, em cada espira da mola de uma luminária e cada farpa do arame de isolamento. Como desejava fazer o livro legível a um público não habituado aos quadrinhos, Talbot baniu os elementos que considerava “infantis”: não há balões de pensamento, linhas de ação ou movimento e onomatopéias espalhafatosas em seu estilo.

The Tale of One Bad Rat é uma obra-prima obrigatória em qualquer lista de grandes graphic novels.




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