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Quadrinhos dão bons filmes?
Por Tiago Cordeiro — Terça, 13 de janeiro de 2004
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O recente sucesso das adaptações cinematográficas de personagens de histórias em quadrinhos parece ter confirmado que uma nova mina de ouro para a indústria cinematográfica foi descoberta. Nos dois últimos anos, estúdios têm sido, quase que compulsivamente, atraídos pela possibilidade de levarem às telas cada personagem de quadrinhos que faz sucesso.
Não podemos esquecer que os filmes do Super-Homem, com Christopher Reeve e o diretor Richard Donner, e os filmes do Batman, dirigidos por Tim Burton e estrelados por Michael Keaton, datam do final da década de 70 até 89. Contudo, até os últimos tempos esses filmes conviviam lado a lado com muitos fracassos. Os dois últimos filmes das respectivas franquias foram cada vez piores (talvez por isso tenham levado ao seu abandono até os dias atuais).
Os casos mais recentes ainda não confirmam os quadrinhos como fonte definitiva de possibilidades cinematográficas. O fracasso de Hulk e o sucesso apenas regular de Demolidor são indicadores de que apenas o nome do personagem, um orçamento generoso e um elenco de estrelas não é garantia de sucesso de bilheteria e muito menos de um bom filme (isso para não falar das pífias versões de Justiceiro e Quarteto Fantástico que surgiram na década de 90).
Alguns de meus amigos insistem em dizer que basta o filme respeitar os quadrinhos e o resultado será bom. Como exemplos incontestáveis, falam de Homem-Aranha e X-Men 2, que alteram muito pouco dos personagens e foram um tremendo sucesso em suas respectivas temporadas, tanto entre os fãs quanto entre quem jamais leu uma história desses personagens. Tenho certeza de que muitos leitores vão concordar com essa opinião, entretanto, creio que não é bem assim.
Entre o final dos anos 80 e início da década de 90, os dois primeiros filmes do Batman conseguiram um sucesso acima do razoável. Na época, os fãs criticaram a escolha do ator Michael Keaton, conhecido por seu trabalho em comédias, para o papel. De fato, ao contrário de Tobey Maguire (intérprete do Homem-Aranha), por exemplo, Keaton não era exatamente o ator fisicamente mais adequado ao papel (ele era mais baixo que todos com quem contracenava). O uso de uma roupa de borracha, que tornava os movimentos rijos e artificiais, não atrapalhou no sucesso comercial do mesmo. Além disso, a roupa era completamente negra, bem distante da azul e cinza dos quadrinhos, além de outras dessemelhanças. Fica então a pergunta: será que Batman é apenas uma exceção?
Para mim não. O que a maior parte dos sucessos comerciais dessas adaptações cinematográficas têm em comum não é exatamente a fidelidade desmedida às suas fontes, mas sim o respeito às concepções originais dos personagens, à sua essência, e não a cada detalhe de seu universo.
Dessa forma procedem os filmes da trilogia O Senhor dos Anéis. Nesses casos, não vemos uma igualdade, mas sim valores incorporados à linguagem cinematográfica. Usando outro exemplo, tanto faz, se Peter Parker será picado por uma aranha radioativa (como ocorre nos quadrinhos) ou geneticamente modificada (a origem que é mostrada no filme de Sam Raimi); o que importa é que ele terá os mesmos poderes de aranha e terá a mesma leveza na telona que tem nas páginas de papel. Obviamente, a isso se acrescentam profissionais competentes, sem os quais não há roteiro que funcione.
Em contraponto, os maiores fracassos do gênero foram aqueles que não modificaram apenas o visual, mas alteraram princípios básicos da identidade daquele personagem, deixando não apenas os fãs insatisfeitos, mas os telespectadores diante de algo imprevisível. A possibilidade de haver sucesso nesse tipo de empreitada vai por água abaixo quando percebemos que os heróis acabam se tornando uma caricatura de suas próprias aventuras. Além disso, usar uma marca e afastá-la de seu público consumidor mais forte é descartar um número seguro de espectadores.
Exemplificar é fácil. Batman Forever e Batman & Robin têm todos esses problemas. Seja na presença de uma Batgirl (Alicia Silverstone) banalizada e descaracterizada ou na tentativa fútil de tornar o Cavaleiro das Trevas um “James Bond de capa”, com cenas de ação extremamente inverossímeis. Enfim, o diretor Joel Schumacher tentou fazer um Batman leve e que “já tivesse superado a perda dos pais” e só conseguiu descaracterizar uma das mais fortes marcas da cultura pop. 
Percebemos então que não é difícil seguir a receita de bolo para filmes desse gênero: um personagem popular ou somente com potencial para um filme blockbuster (como é o caso dos dois filmes de Blade, um personagem quase obscuro nos quadrinhos) e trabalhar dentro de seu universo e não fazer uso de um nome desprezando as características que carrega. Por fim, cabe aqui uma previsão: se concordarmos com todos esses pontos, fica difícil crer no sucesso do filme Mulher-Gato com Halle Berry. A história não tem nenhuma ligação com a ladra mais charmosa dos quadrinhos e nem tampouco seu visual (que até aqui só nos causou risos). Aparentemente, o filme dirigido pelo francês Pitof só vai servir para comprovar esta tese. Alguém duvida?
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