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Um dia de cão em capítulos
Por Alexandre Maron — Segunda, 12 de janeiro de 2004
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Ainda há esperança na TV. Quando todo mundo acha que ninguém mais vai criar algo novo e diferente, surge um produtor maluco bancado por um executivo que está de bom humor e faz-se um seriado com tutano. Foi o caso do espetacular 24 Horas, que a Globo passa a exibir hoje à 0h10, no lugar daquela chatice monumental que virou o Programa do Jô.
Em março do ano passado, fui a Los Angeles fazer uma bateria de entrevistas com elencos de seriados da Fox. Conheci os sets de Angel e 24 Horas, os escritores de Os Simpsons, os elencos de Malcolm, Boston Public, O Desafio, Still Standing e John Doe.
Parte do resultado dessa visita pode ser vista em duas entrevistas com Kiefer Sutherland e com o criador de 24 Horas, Joel Surnow, aqui no SoBReCarGa.
A imprensa foi recebida dentro do enorme cenário da divisão anti-terrorista, que estava semi-destruída por conta de um ataque a bomba no terceiro episódio do segundo ano de 24 Horas. Ali, fomos entrevistando todo o elenco e criadores. Como souvenir, peguei um dos papéis cenográficos que estavam em cima de uma das mesas. Estava escrito "O povo contra Fox Mulder" e simulava um documento secreto, uma brincadeira com Howard Gordon, veterano de Arquivo X, que estava no grupo de escritores e produtores, ao lado de Surnow. É um souvenir bacana, mas eu queria muito era uma das jaquetas bacanérrimas com o "24" naquela tipologia de relógio digital que a equipe de produção estava usando. Esse brinde parrudo eu não ganhei e nem tinha em loja nenhuma para eu comprar.
Mas, voltando ao seriado, a premissa é acompanhar as 24 horas do dia na vida do agente Jack Bauer (Kiefer Sutherland). Ele comanda uma equipe de combate ao terrorismo em uma tentativa de desmantelar o que parece um plano de atentar contra a vida do senador David Palmer, o primeiro negro com reais chances de se tornar presidente dos Estados Unidos. Cada episódio se desenrola em tempo real, contando inclusive os comerciais, e o reloginho vai aparecendo e intensificando a tensão.
O resultado é a melhor série de ação e aventura que a TV foi capaz de criar em muito tempo. Quando 24 Horas surgiu, os desavisados se apressaram em dizer que a premissa do tempo real não era tão nova assim. Que outros filmes já haviam feito isso (veja Tempo Esgotado, com Johnny Depp) e a fórmula era apenas uma cópia. Que na era dos reality shows, tempo real era algo supérfluo.
Nada mais besta do que achar isso. Para colocar essa premissa em formato de série, foi preciso pensar muito bem nas soluções estéticas, como a divisão da tela, o reloginho digital, a câmera sempre na mão e cheia de obstáculos no caminho, criando uma aguda sensação de realismo e de presença, afinal parece que você está lá acompanhando Jack e seus companheiros a cada passo. E além do mais, até mesmo os reality shows como o Big Brother usam e abusam do recurso de edição, que condensa um dia em 15 minutos. No caso de 24 Horas, é justamente o contrário: os autores precisam criar histórias e situações que preencham 24 episódios de uma hora. A incógnita principal, aliás, era em relação à capacidade dos escritores de manter a história interessante e consistente.
Quando a série estreou em 2001 nos Estados Unidos, poucas semanas depois do 11 de setembro, sofreu ameaças de não ser exibida ou de ao menos ter o seu teor alterado. Naquele momento, falava-se que programas com esses temas seriam indesejados e poderiam fracassar. Estavam enganados, claro. Ao contrário, 24 Horas foi um dos programas que absorveu mais rapidamente os novos ventos do governo Bush. Contrariando uma tradição da TV de apresentar atitudes moralistas de seus personagens, Jack não hesita em quebrar regras e até em liquidar inimigos indefesos apenas por uma questão de vingança.
No entanto, o formato da série tornou mais difícil sua aceitação. Embora os escritores tentem tornar a ação a mais episódica possível, estabelecendo objetivos claros a cada hora e tentando fazer remissões dentro dos diálogos e ao início dos capítulos, é difícil pegar um episódio solto da série. É por isso que a Fox americana intensificou a política de reprises nos Estados Unidos e a brasileira exibe dois capítulos de cada vez, mais a reprise da noite e maratonas de quatro ou cinco episódios regularmente. A Globo, provavelmente, vai sofrer menos com isso, por ter optado pelo formato diário, mas certamente terá que fazer longas remissões todos os dias para quem for chegando mais tarde.
E melhor ainda é que quem perder algum dos episódios não precisa ficar desesperado. Pode preparar o bolso e comprar a série em DVD, quando ela for lançada pela Fox em fevereiro, próximo ao lançamento do terceiro ano de 24 Horas na Fox.
Confira aqui o guia da 1ª temporada da série.
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