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Saco cheio...
Por Mônica Loureiro — Segunda, 12 de janeiro de 2004
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Quem dedica parte de seu tempo de vida à música, seja escrevendo, ouvindo, colecionando, criticando ou o que for, deve se sentir angustiado. Porque duvido que exista alguém que nunca passou por alguma situação como, ao se ouvir rádio, não aguentar mais a mesma meia dúzia de músicas/sucessos que repetem durante a programação. Ou olhar para seus discos - sejam eles muitos ou não - e perceber que não tem vontade de ouvir nada. Isso mesmo, nada. Mesmo aquele raro de que você tem mais ciúme, o outro que sabe de cor as letras de todas as faixas ou o que o emociona por algum motivo.
Isso acontece constantemente comigo, e talvez em maior escala por eu escrever sobre música. Afinal, ter que ouvir muita coisa onde a maioria é só agressão aos ouvidos acaba minando a paciência, sobrando muito pouco ou nada para o que realmente vale a pena.
De repente, me conscientizei mais disso quando um amigo, que gosta e entende de música, mas não trabalha no ramo, me perguntou: "Há muito tempo só tenho vontade de ouvir coisas antigas. Isso acontece com você também?". Não demorei a responder que sim, "não tenho tido saco para nada de novo". Bem, a única exceção, que já até foi assunto de colunas anteriores, é o disco de Maria Rita, que vai para o aparelho de som pelo menos uma vez por semana. Fora a filha de Elis, só meus queridos vinis - que até andam meio mofados... - e CDs lançados, no mínimo, até a década de 90, têm chance.
Aí, ouço papos do tipo "baixei tantas músicas da banda tal!", "estou com trocentas músicas no computador, preciso passá-las para CD...". Nossa, se não for obrigação profissional, do tipo ter que estar antenado com tudo o que é lançado por aí afora, é humanamente impossível dar conta de tanto material! Aí vira puro consumismo, não há preocupação em prestar atenção na música, admirá-la, entendê-la, divertir-se com ela! É como colecionar figurinhas, disputando quem tem mais ou quem consegue aquela mais difícil. É resultado da avalanche de informações, problema comum em nosso mundo multidisciplinar e globalizado, onde é quase impossível dispormos de tempo para nos aprofundarmos em algo.
É melhor baixar...
Saiu esta semana no NME uma notícia que diz que uma pesquisa realizada nos Estados Unidos aponta uma queda significativa nos downloads. Em números, significaria que, de 35 milhões de usuários de serviços de troca de MP3 gratuitos, hoje apenas 18 milhões continuam praticando esses "atos ilegais". Isso seria resultado de multas altíssimas que a RIAA (associação dos "tubarões" da indústria fonográfica norte-americana) vem aplicando contra os infratores.
Enquanto isso, no Brasil... ilegalidade é sinônimo mesmo de pirataria nas ruas. A gente tropeça cada vez mais em camelôs com lonas estendidas no chão cheias de CDs piratas. Já repararam que até as caixinhas são diferenciadas? Será que em 2004 alguma coisa muda? Não há trabalhador brasileiro que possa dar R$ 30, R$ 35 em um lançamento. Isso sem falar nos importados, a valores ridiculamente mais altos. Só mesmo os abastados que frequentam as modern sounds da vida...
Dessa forma, que continue a pirataria! Ou então, que abaixem os preços dos CDs. Ideal mesmo seria R$ 9,99, por quanto são vendidos inúmeros títulos nas Lojas Americanas. Tudo bem, é catálogo, mas não é desculpa.
Ninguém acredita em executivo de multinacional chorando miséria e despedindo funcionários como solução para a crise - como aconteceu em várias gravadoras no final de 2003. Eles têm é que parar de aplicar dinheiro nos jabás e de fazer promoções para VIPs. E facilitar a vida do consumidor, que é quem os sustenta.
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