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A indústria da expectativa
Por Alexandre Maron — Sexta, 9 de janeiro de 2004
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Janeiro é tempo de falar em expectativas. E nada mais presente do que essa palavra no mundo intensamente midiatizado de hoje. Espera-se ansiosamente por tudo. E todas as coisas são anunciadas com enorme antecedência e, quando acontecem, surgem em todo o mundo ao mesmo tempo. Dizem que a história serve para que não repitamos os nossos erros. O problema é que o cinismo de nosso tempo criou uma sociedade em que ninguém quer ser pego de calças curtas. Ou melhor, ninguém quer demonstrar. Com base nisso, cria-se um mundo de previsões, avaliações, análises... E, quando o fato acontece, decepções. É a indústria do teaser, a palavra inglesa que se refere ao ato de excitar, provocar.
É um fenômeno interessante, se pensarmos na quantidade de jornais, sites, telejornais, programas de TV variados etc. etc. etc. É tanta atração que falta assunto. Na falta do que aconteceu ontem, vamos falar do que vai aparecer de interessante amanhã. E pior ainda é saber que toda essa mídia está na maior parte do tempo agindo conforme os interesses de departamentos de marketing enormes que manipulam os meios de comunicação como marionetes, quando o próprio jornal ou revista não faz a reportagem pautado por algum executivo do conglomerado que faz parte e que também produziu o tal filme, show ou seja lá o que for. Basta ver como a revista Time cobriu filmes da Warner, que é do mesmo grupo (AOL-Time-Warner) nos últimos anos.
Vamos analisar a chegada de um grande evento. Uma Copa do Mundo, por exemplo. Na última, França e Argentina eram os times do momento. Temidos, imbatíveis, não conseguiram passar da primeira fase. Tudo o que se falou antes, foi por terra rapidamente. Tudo bem, tudo bem. É futebol, a caixinhade surpresas.
Então, a invasão do Iraque. Durante meses os jornais de todo o mundo falaram do poderio americano. De como a entrada das tropas seria rápida e que a luta por Bagdá seria sangrenta. E dá-lhe analistas, especialistas, mapas, gráficos, armas. Nada adianta. Quando começa a invasão, a chegada a Bagdá é mais longa do que se esperava e a tomada da cidade acontece facilmente. Ah, mas isso é uma guerra. Coisas imprevisíveis acontecem em um conflito desse calibre.
Guerra nas Estrelas, então. Ou melhor, Star Wars, porque George Lucas resolveu que sua grife seria mundial, com um nome unificado. Nada de traduções. Bom, mas como eu ia dizendo, quando o primeiro filme começou a ser feito, todo dia tínhamos novidades, especulações, fotos roubadas das filmagens. Concluídas, passamos a ouvir que o filme seria sensacional, que a seqüência da corrida seria emocionante etc. Steven Spielberg, chapa do Jorjão, afirmou que o filme era ótimo. Abertos os cinemas, com direito a maratonas de sessões pela madrugada, todo mundo viu a verdade: o filme era ruim.
Claro que você está naturalmente ansioso para ver Homem-Aranha 2, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Shrek 2, A Supremacia Bourne. Mas confesse que, se não aparecem notinhas sobre esses filmes o tempo todo, você esqueceria deles até que um dia alguém dissesse que acabaram de estrear ou estão para entrar em cartaz.
O que há em comum a todos esses eventos é que eles sofrem a tal interferência ou a simples influência dos planejadores de comunicação. No caso dos filmes, o alimento é a divulgação a conta-gotas de informações diversas que vão excitando a curiosidade dos fãs e esticando a presença de um produto na mídia. Quando se fala em um evento esportivo, os próprios canais de TV, jornais e revistas precisam promover, para garantir vendas maiores durante a tal competição. A mesma coisa pode ser dita de conflitos como a invasão do Iraque. As redes de TV e os jornais sabem que as pessoas querem saber o que está acontecendo por lá. Então, tentam antecipar e depois repercutir tudo o que podem, na tentativa de fazer aquelas imagens históricas que lembram de conflitos anteriores, como a Segunda Guerra e o Vietnã.
E mais importante do que isso, é pensar que os governo nacionais, no caso do Iraque, o dos Estados Unidos, com a grande experiência de ter milhares de profissionais acostumados a reger a mídia para promover seus filmes, shows de rock e tudo o mais, sabem muito bem como fazer a imprensa em geral dançar conforme a sua música. E muita gente, mesmo consciente do processo, vai lá e, sem a menor vergonha, dança.
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