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Tomorrow Stories redime os super-heróis
Por Rafael Lima — Quinta, 8 de janeiro de 2004
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Quando Alan Moore afirmou que tinha matado os super-heróis com Watchmen, ninguém imaginaria que ele os ressucitaria por conta e punho próprios quinze anos depois. Eu mesmo fiquei um bocado desconfiado quando soube do lançamento do selo America’s Best Comics: a essa altura do campeonato, quase cinqüenta anos na cara, o barbudo hirsuto vai se meter a inventar não sei quantos novos super-heróis, uma identidade secreta, uniforme e super-poderes para cada um, antagonistas e figurantes, sem falar em arrumar desenhista para essa turma toda... Não ia dar certo, definitivamente não ia dar certo.
 Deu - e eu, que só apostei na Liga Extraordinária, quebrei a cara. Promethea e Tom Strong ganharam prêmios como melhor revista de linha e melhor história, a Liga Extraordinária virou filme e Tomorrow Stories, atualmente em sua segunda edição pela Pandora Books, é provavelmente a melhor revista com antologia de histórias curtas do mercado.
O velho hippie sabia o que dizia quando afirmou que o gênero dos super-heróis era rico o suficiente para merecer uma nova injeção de ânimo, no final dos anos 90. Ou talvez estivesse pagando penitência, ao ver como suas propostas para revitalização, na década de 80, degeneraram em violência desmedida e exibicionismo estilístico. No fundo, apenas queria mitigar vícios que ajudou a disseminar, ainda que inconscientemente.
O problema é que, formalmente, não há mais solução para o gênero dos super-heróis pelo menos desde a década de 80. O que as grandes editoras têm feito, com o compromisso de mandar pras bancas não sei quantos títulos por mês, é repetir indefinidamente fórmulas de comprovado apelo público: mata-se um personagem aqui, ressucita-se ali, muda-se a composição de um grupo de super-heróis, provoca-se um cataclisma de proporções épicas para reunir os principais personagens num imenso cross-over, inventa-se um novo e poderosíssimo super-vilão, etc. O público não se renova, as vendas ficam estagnadas. Se estivéssemos falando de um gênero cujo público já está consolidado – como as literaturas policial e de ficção científica – isso não seria problema; só que, em se tratando de histórias em quadrinhos, em eterno movimento de contração e expansão de mercado, é um risco perigoso a se correr.
Mas parece que a cartola de Alan Moore tem um fundo infinito, porque não cansa de sair coelho dali. O último foi a maneira como ele resolveu o dilema do super-herói: através da paródia. Afinal, mesmo que irônica e sacana, a referência a cânones é uma das mais poderosas formas de homenagem. Importante notar que ABC nem é a estréia de Moore nessa seara: a Liga Extraordinária era um grupo de super-heróis na Era Vitoriana, 1963 satirizava as primeiras aventuras dos principais personagens da Marvel, Watchmen era uma releitura do próprio conceito dos super-heróis sob o prisma realista.
Assim, em Tomorrow Stories, lemos as histórias de Jack B. Quick, o garoto mais esperto do mundo e seus experimentos científicos, que abalam a vida duma típica cidade interiorana; de Cobweb, uma heroína sensual e misteriosa; de Greyshirt, um detetive investigativo de sobretudo, venda e bengala; de First American e U.S. Angel, dupla de super-heróis patriótica na defesa dos valores norte-americanos; de Splash Braningham, também conhecido como "The Ink, o vingador indelével", um ser de pura tinta.
Jack B. Quick é uma gozação descarada com a maneira torta como a ciência sempre foi abordada nas HQs e tem um certo sabor das histórias de ficção científica da década de 50; é de onde têm saído as melhores histórias até agora. Cobweb é mais difícil de definir. Lembra um pouco a mistura de sensualidade e terror das histórias da Warren (Kripta, no Brasil), mas também há um componente de sonho e delírio. Greyshirt tem narrativas calcadas nos moldes de The Spirit, com títulos se mesclando ao cenário e o personagem principal funcionando mais como apresentador do que protagonista. O tom lembra certas histórias de terror da EC Comics. First American parece uma das paródias de Harvey Kurtzman, ilustradas por Bill Elder nos primeiros tempos da Mad, com pilhas de piadas visuais no cenário, e o tom é o dos quadrinhos ufanistas norte-americanos da década de 40. O estilo do desenho lembra a linha de Marc Silvestri, Neal Adams, Jim Steranko. The Ink é super-herói com humor, na linha do Capitão Marvel ou do Homem-Borracha.
Ao contrário do que eu possa ter dado a entender, não é indispensável o conhecimento prévio da História dos quadrinhos para curtir o gibi, mesmo que isso ajude, e muito, a leitura. Metade pode ser lida tranqüilamente como se fossem de humor, e a outra metade, de mistério ou horror. Mais do que excelentes, as ilustrações são adequadas, a cargo de velhos parceiros de crime, como Kevin Nowlan ou Rick Veitch. E ainda que a revista dê mancadas aqui e ali (Cobweb não consegue definir seu tom; Jack B. Quick - logo o melhor! - sumirá a partir do quinto número), o fração melhor prevalece, sempre prevalece.
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