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O que faz um clássico?
Por Leonel Dorkboy — Terça, 6 de janeiro de 2004
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Faça o seguinte experimento: caminhe sorrateiramente até uma roda de fãs de HQs que estejam reunidos em uma comic shop qualquer (é fácil identificá-los: se não estiverem com camisetas de personagens, poderão ser detectados pelo papo, que invariavelmente gira em torno de quadrinhos). Entre na roda, balance a cabeça e ria com os comentários (já estabelecemos que eles estarão falando de HQs, certo?) e, quando houver uma brecha na conversa, dispare a seguinte frase: “Mas história ruim mesmo é aquela tal de Watchmen”. Observe as reações.
Provavelmente vai haver um ou dois indignados exaltados, mais um par de gozadores que vai se matar de rir achando que é piada, e mais um ou dois que irão concordar, e então um longo e acalorado debate começará sobre os méritos e defeitos de Watchmen. Tenha em mente que, provavelmente, os defensores de que Watchmen é ruim apenas pensarão assim porque hoje em dia, em muitos círculos, é cool odiar o que todo mundo sabe que é bom. Mas, indo direto ao ponto, por que haverá tanta discórdia em cima de uma simples HQ? Além do fato de que nerds (vamos assumir, rapazes) adoram discutir detalhes e exaltar-se por causa de obras de entretenimento, temos o fato de que Watchmen é um clássico. Assim, mesmo, em negrito.
Ok, mas por quê?
Pouca gente sabe ao certo por que certas histórias são consideradas “clássicos”. Claro, se isso fosse literatura convencional e tivéssemos faculdades que giram em torno do estudo dessas obras, haveria multidões de especialistas que poderiam tergiversar sobre como tais e tais obras falam ao inconsciente e aos temas primais do ser humano e blablablá... Mas, na realidade, temos muito poucos estudiosos de quadrinhos, e a maioria de nós nem leu os livros deles. O que nós temos são muitos fãs ardorosos com opiniões fortes. E que não sabem explicar a razão dessas opiniões.
Muito pode se argumentar em cima disso, então. Por que Watchmen é um clássico? E O Cavaleiro das Trevas? Elektra Assassina é um clássico ou só uma boa história? E quais histórias recentes irão tornar-se clássicos? Os Invisíveis? Preacher? Homem-Aranha Ultimate? É claro que cada um desses tem seus méritos e defeitos, e eu não vou me arriscar a dar a minha opinião aqui (mas, caso me arriscasse, eu diria que Preacher é a melhor coisa depois de pão fatiado). Uma das coisas que mais se fala é que certas histórias (e aqui figuram com proeminência os onipresentes Watchmen e O Cavaleiro das Trevas) redefiniram o conceito de super-heróis e brincaram com os clichês e referências “gravadas em pedra” no gênero dos supers.
Ok, mas e quem não gosta de super-heróis? Não estranhem, eu mesmo não suportava super-heróis dos 12 aos 22 anos de idade, quando descobri que a Marvel tinha contratado excelentes argumentistas para alguns dos seus maiores títulos. Daniel Clowes, um dos maiores quadrinistas alternativos do mundo disse uma vez que ficava triste por que as histórias consideradas como o “ápice” da nona arte eram apenas “violência e pessoas de roupa colante”. Uma opinião radical, mas válida.
Além disso, vamos e venhamos, para quem não conhece ou não gosta de super-heróis, redefinir os conceitos desse gênero não significa nada. Analisando friamente, parece até mesmo uma tremenda chatice: você leria por prazer um romance que só pudesse ser desfrutado caso você reconhecesse todas as referências a tragédias gregas, poemas clássicos, autores do século 18 e tendências literárias? Provavelmente não (mas, caso a resposta seja sim, você é bem mais culto do que eu). Isso, na maior parte das vezes, seria considerado pedante.
Ok, então ainda permanece a questão: por que essas e outras histórias são clássicos? Vamos tentar analisar com mais distanciamento: Watchmen, por exemplo, é uma das poucas histórias em quadrinhos que mantém vários focos narrativos simultâneos e que não possui apenas um personagem (ou grupo de personagens) principal. Correto? Isso nada mais é do que uma das coisas que compõem a estrutura literária de um romance (sabe, aqueles livrões que param em pé na estante). Normalmente nas HQs, nós vemos a estrutura literária de novela (aqueles livrinhos que caem para o lado na estante), ou seja, apenas um foco narrativo, no qual nós acompanhamos a jornada de um personagem ou grupo de personagens sob sua perspectiva. Simples, não? Essa, na minha opinião (olha ela aí aparecendo de novo) é uma das razões pelas quais Watchmen é um clássico: é uma história que utiliza uma estrutura que tem um apelo muito maior do que a estrutura “comum” de quadrinhos. A maior parte das pessoas, mesmo que não entenda bulhufas de super-heróis, pode ler Watchmen e ver uma excelente história de mistério, uma excelente história sobre a Guerra Fria, uma excelente história sobre relacionamentos, etc. E, mesmo sem saber, essa pessoa “leiga” vai se identificar com o tipo de estrutura à qual está acostumada (pois são muito mais numerosos os leitores de romances do que os de HQs).
Já O Cavaleiro das Trevas (para permanecer nos nossos dois focos) é, simplesmente, um estudo de personagem impressionante. Usando a estrutura de novela (acompanhar só um personagem, etc.), a história nos mostra variadas facetas de Bruce Wayne, sua transformação interior em Batman e a sua obsessão. Temas poderosos, como corrupção, velhice e decadência, também são abordados. Simples: temos aí o nosso clássico.
Mas, mais direto ao ponto, essas histórias são considerados clássicos porque são boas pra c*#%&$+.
E, francamente, o que nós precisamos é de mais estudiosos e menos fãs inflamados. Mais teorias e menos gritos. Mais argumentos bem-informados e menos favoritismos pessoais. E, por favor, menos pessoas que começam uma discussão inflamada só porque algum desocupado resolveu entrar em uma loja e dizer que Watchmen é ruim.
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