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O pior, mais trash ou mais bizarro de 2003
Por Douglas Donin — Segunda, 5 de janeiro de 2004
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Olá, pessoal! Bem, agora 2003 é passado – o assunto é 2004! 2004, já pensaram? Aqueles carros voadores e esteiras interligando o topo dos prédios, que muita gente imaginava para o ano 2000, estão quatro anos atrasados. Entra ano, sai ano e não chegamos nunca naquele futuro que vimos nos Jetsons!
Muita gente, como eu, adorou esse ano que passou e muita gente o detestou. Opiniões pessoais de lado, e analisando o que esse ano possa ter trazido de bom para a cultura pop em geral, 2003 foi um ano atípico. Foi um ano até bizarro. Na verdade, o ano parece ter saído de um sonho – não um sonho bom ou ruim, apenas um sonho confuso e febril.
Pois, nos domínios do pop, o que foi pior, mais trash ou mais bizarro? E o que decepcionou?
10 - The Hulk. O brutamontes da Marvel não ganhou um filme ruim. Teve seus defeitos, sim, mas, apesar dos pesares, foi um filme muito bom. Por que colocá-lo na lista de decepções?
Ora, porque The Hulk simplesmente teve um péssimo desempenho nas bilheterias. Não costumo avaliar um filme por seu desempenho nas bilheterias, mas, neste caso, talvez seja necessário.
Quando você faz um filme de super-heróis, deve respeitar algumas regrinhas. Primeiro, o filme não deve ser muito sério ou sisudo. É incompatível com um filme muito sério mostrar pessoas voando, com as cuecas sobre as calças ou virando gigantes verdes. Tem fãs vendo. O público de um filme do Hulk quer ver explosões e pancadaria – e não há nada de errado nisso, afinal, Hulk é Hulk.
Ang Lee sabia disso, e fez um filme com... explosões e pancadaria. O filme é esteticamente perfeito, na minha opinião. Mas o roteiro acabou misturando um pouquinho as coisas. Certas coisas ali não precisavam estar no filme. Tudo bem que os filmes baseados em quadrinhos tendem a ser mais sérios hoje em dia, mas muita gente ficou aborrecida com a demora para o aparecimento do Hulk. Muito blá-blá-blá, muito falatório pseudocientífico, muita psicologia... Entendo que tudo tinha uma função na trama, e que adicionava certa tensão, mas parece que o público em geral não gostou muito. A certa hora, as pessoas já estavam se agitando na cadeira, perguntando se tinha ou não Hulk no filme. Por isso, The Hulk foi um tanto “lento” em comparação ao que as pessoas esperavam.
Ang Lee: entendemos o seu respeito pelo Hulk. Apreciamos esse respeito e agradecemos – agradecemos mesmo! Mas, na próxima vez que for fazer um filme sobre gigantes verdes radioativos, pode fazer um filme mais bobinho e direto, tá bom? Just relax and have fun.
9 - Schwarzenegger, o Governador do Futuro. Ok, atirem em mim. O que a eleição do Xuarza tem a ver com cultura pop?
Ora, tudo! Querem algo mais pop do que isso? Este fato demonstrou claramente, para aqueles que ainda não tinham percebido, como as coisas estão de cabeça para baixo neste mundo. Temos um chimpanzé em Washington e um gorila na Flórida. Macacos por todos os lados. Eles venceram. Onde está o Charlton Heston para nos salvar?
Não que isso já não tivesse acontecido. Outro ator, Ronald Reagan, já foi presidente dos EUA, mas eram tempos de Guerra Fria e todos estavam muito confusos e com medo, então dava para entender. Cicciolina, famosa atriz, hã, “adulta”, que muita gente nova não deve conhecer, já foi deputada na Itália, mas aquela eleição foi uma zona – entendam como quiser – e eram outras épocas. Sabem, tinha aquele lance de revolução sexual, e os italianos estavam descobrindo o próprio corpo. Hoje em dia, essas coisas não acontecem mais, não? Hoje em dia as pessoas estão mais esclarecidas, não? Uma pinóia!
A política, que antes somente era incompreensível e ilógica, virou trash mesmo, definitivamente. Política não é mais um assunto técnico, científico, sério, agora é espetáculo, circo, diversão! Política é pop – e o pop não poupa ninguém! Não nos irritamos mais com falta de seriedade, pelo contrário, até gostamos de ver, proporciona boas risadas! Votamos não no mais apto a governar, mas sim, no mais bonito, no mais pitoresco, no mais kitsch. Quem se importa, afinal de contas?? O divertido hoje em dia é ver o circo pegar fogo, mesmo que estejamos embaixo da lona! Viva la vida loca!
Já espetacularizamos tudo mesmo, por que não nossas lideranças? Kléber Bam-Bam para presidente já!
8 - Domingo Legal. Esse abominável programa sintetiza, melhor do que qualquer coisa, o nível de imbecilidade ao qual a televisão aberta brasileira submete os seus espectadores. É um retrato da decadência mental coletiva de nossas massas. E tem mais - por que não falar? -, é um motivo de vergonha para todos nós brasileiros.
Lembro-me bem de quando o fotógrafo Spencer Tunick fotografou várias pessoas nuas em São Paulo. Independente do que você acha ou não, se é ou não de bom gosto, é arte e deve ser respeitada. Naquela semana, acidentalmente, passei pelo tal programa, apenas para me indignar com a torrente de besteiras que Gugu e os seus ajudantes, ET e Rodolfo, e os integrantes do Café com Bobagem, despejavam sem parar.
Foram horas, horas e mais horas repetindo a mesma piada. Enquanto sempre as mesmas imagens da reportagem eram repetidas até quase o desgaste da fita, os comunicadores enxovalhavam os voluntários que apareciam nas imagens, gozando da cara de um, dos seios de outra, das nádegas de um terceiro e dos órgãos genitais de um quarto. E as imagens iam e voltavam.
Assim foi do início ao fim do horário. O humor refinado de porta de banheiro de rodoviária, entregue direto no seio da sua família pelo milagre da televisão. O mais espantoso é que, duas semanas depois, eu caí acidentalmente no mesmo canal. E adivinhem só? Continuavam a mesma brincadeira sem graça, com as mesmas imagens, agora com as famigeradas “dublagens” do Café com Bobagem!
Por essa falta de tato e de respeito, Gugu e sua equipe merecem ter os testículos arrancados com uma colher de madeira e colocados na ogiva de um foguete com destino ao centro do sol. No mínimo.
7 - Kubanacan. Eu confesso! Eu confesso, mea culpa! Sou um noveleiro! Um noveleiro inveterado! Confesso que não perdi os últimos capítulos de O Clone (se forem me matar, por favor, atirem na cabeça para que eu não sofra muito)! Confesso que comprei meu primeiro Master System por causa das propagandas na Tieta! Droga, confesso que colecionei o álbum de figurinhas de Que Rei Sou Eu?! Eu fiz, sim, tudo isso!
Não vamos mentir mais. Vamos sair do armário de uma vez por todas. Repitam comigo: "TODOS GOSTAMOS DE NOVELAS". Faz parte do “ser brasileiro”. Mas vamos combinar: Kubanacan é uma afronta à inteligência. Podemos dividir essa “novela” em três partes essenciais: primeiro e mais importante, os peitos da Danielle Winnits. Segundo, o peito do Marcos Pasquim e companhia. Terceiro e irrelevante, todo o resto.
A novela nem história tem! Desafio qualquer um, mesmo o autor da trama, a dizer sobre o que se trata. É apenas mais um marco no gradual processo de substituição do conteúdo da TV aberta brasileira por baixaria da pior qualidade.
Pelo menos uma certeza novelas como Kubanacan e Uga Uga nos trazem: dentro de alguns anos, não precisaremos mais alugar filmes pornôs na locadora, eles estarão passando no programa da Xuxa, entre BeyBlade e Bob Esponja. Whohoo!
6 - Domingo Legal. Não, você não está enganado. Isso mesmo, eu coloquei duas vezes Domingo Legal na lista – e pensei muito se iria ou não colocar uma terceira. Afinal, a ameaça brasileira mais evidente à evolução mental do Homo sapiens aprontou demais nesse ano, em todos os fronts.
Não satisfeito em conduzir o pior programa da televisão brasileira de, para ser bonzinho, todos os tempos; de promover concursos de Carla Perez mirim; de envergonhar as próximas 80 gerações de Spencer Tunick e de baixar a média do nível intelectual brasileiro em aproximadamente quinze pontos de QI por semana, Gugu Liberato resolveu aloprar de vez. Em um desrespeito sem precedentes ao jornalismo, que faria Hunter Thompson ter calafrios, o Orson Welles brasileiro resolveu inventar uma entrevista falsa com supostos membros da criminalidade do centro do país.
Nessa tal entrevista, “membros” do PCC prometiam matar, sequestrar e fazer outras gentilezas com meio mundo – José Luiz Datena, Padre Marcelo Rossi, um monte de gente. Ora, se alguém aparecesse na televisão me jurando de morte, eu não iria gostar nem um pouquinho. “Ah, mas era brincadeirinha, não tinha perigo!” Claro! O problema é que Gugu não contou para ninguém, e se não fosse sua equipe dar com a língua nos dentes, até hoje o Padre Marcelo estaria dormindo no cofre da Casa da Moeda.
Todos somos enganados toda hora. Teorias da conspiração de lado, muita coisa que vemos na televisão é marmelada. Pegadinhas, intrigas e resultados do Big Brother, eleições presidenciais americanas... Pensem bem, por que arriscar deixar o negócio correr ao sabor do acaso quando podemos fazer uma experiência controlada, com script e tudo? É até legal ser enganado, desde que não se descubra. Mas Gugu e sua trupe foram longe demais: passaram feio do limite do que é brincadeira inofensiva.
Na semana que vem, o crème de la crème! Não percam as primeiras e concorridíssimas cinco posições!
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