Um filme pouco diferente

Depois que
Mel Gibson dirigiu os ótimos
Coração Valente e
Paixão de Cristo, todos os seus longas são aguardados com certa expectativa por público e crítica. Independente da violência, Gibson não poupa o telespectador de cenas fortes, ou da polêmica contida nos dois filmes citados, ambas histórias foram contadas de forma competente e envolvente. Não havia a possibilidade de sentir indiferença perante o que foi mostrado. Não havia; mas
Apocalypto, a nova aposta do diretor, parece comum demais e excessivamente hollywoodiano para convencer como um retrato da antiga civilização Maia.
Indicado em três categorias do Oscar 2007 (maquiagem, melhor edição de som e melhor mixagem de som),
Apocalypto retrata os últimos dias da civilização Maia por meio da aventura de Jaguar Paw (
Rudy Youngblood), índio que é capturado para ser sacrificado e tem que lutar por sua vida e família. A Saga, segundo Gibson, foi feita para passar a sensação de ação frenética, objetivo alcançado com sucesso em alguns momentos do filme e o ponto alto da produção. No restante, vemos fatos que poderiam ser retratados de forma mais dinâmica, como a viagem da tribo de Jaguar até a pirâmide do sacrifício, o que resulta em inconsistência e exagero.

Assim como em
Paixão de Cristo - rodado em Aramaico-
Apocalypto exigiu que os atores aprendessem uma língua diferente, a Maia do Yucatan. Para isso, nativos de Yucatec treinaram os atores por semanas na pronúncia e entonação correta de suas falas, e instrutores permaneceram no set de filmagem todo o tempo. Como se não bastasse, Gibson pesquisou muito para encontrar atores com característica indígena e vigor físico elevado. O resultado é um elenco de novatos e estreantes, como o protagonista Rudy Youngblood, um índio americano das tribos Comanche, Cree e Yaqui, que nunca havia atuado em um filme antes.
Com todas essas diferenças listadas, o novo longa de Mel Gibson caminhava para o notável. Para completar seu pacote de ousadias, o diretor tinha em sua mão uma civilização repleta de mistérios e costumes interessantíssimos. Somente a arquitetura Maia, se bem retratada, daria um tom especial ao filme. Mas tudo aparece na tela de forma superficial. Os estereótipos de herói, vilão e mocinha estão em pleno destaque, o que deixa o longa previsível, com um foco equivocado, esbarrando em clichês, como a cena do sacrifício aos Deuses. Quem ainda não viu uma cena de um índio realizando um sacrifício aos Deuses?
Apocalypto até passeia pelas pirâmides - você verá algumas-, prende por momentos o telespectador e tem coragem ao afirmar que as guerras entre as tribos colaboraram muito para a destruição dos Maias, mas acaba como uma jogada de segurança, quase sem ousadia alguma, que vai agradar a maioria. Talvez se Jaguar Paw tivesse o carisma de seu diretor quando interpretou William Wallace em
Coração Valente, a impressão seria outra.