Rambo de tanga
Apocalypto se passa na América Central, no início do século 16, tendo como protagonistas tribos do povo maia, mas poderia se passar em Tóquio, onde um jovem honesto teria que enfrentar a Yakuza para salvar sua família dos vilões criminosos.
Mel Gibson, por algum motivo, quis gastar milhões de dólares para gravar um grande épico que na verdade não é nada mais do que um filme médio, sobre um herói como qualquer outro de filmes de ação. Como em inúmeras produções desse estilo, o mocinho tem que enfrentar todo mundo para vingar ou libertar alguém – o que, neste caso, se resume em atravessar quilômetros correndo, sendo perseguido ferozmente, para tirar sua esposa grávida e seu filho de dentro de um poço, onde correm o risco de morrerem afogados pela chuva.
Cultura ancestral e povos maias são meros coadjuvantes a seqüências de ação que nos lembram sempre como o diretor adora uma cena cheia de carne dilacerada. Na verdade, podia ser um filme do Van Damme, se ele soubesse falar iucateque. Ou um filme estrelado pelo próprio Gibson, que, se fosse ambientado 200 anos depois, seria uma seqüência de
O Patriota.
A história faz um confronto dos mais rasos entre mocinhos e bandidos. Há uma tribo boa, feliz, alegre, onde todos são amigos, e há uma quadrilha, que vem da “cidade grande”, composta por vários homens horrorosos, cruéis e sádicos, que matam e torturam todo mundo sem pestanejar. É isso. Confronto bons x maus dos mais simples e, infelizmente, dos mais superficiais. A profundidade está presente em poucos momentos, é quase tudo composto por emoções baratas e sentimentos fáceis. É como um melodrama bem melodramático, digno de um novelão, só que com pessoas de tanga correndo no mato.

Então, os homens maus capturam as pessoas da tribo boa e levam para uma grande cidade maia, a fim de que sejam sacrificados em um ritual de adoração a um deus qualquer. A cidade, aliás, apesar de ficar logo ali, atrás de uma montanha do outro lado do rio, é completamente desconhecida pelos habitantes da tribo boa.
Quando chegam à cidade, pensamos então que algo poderá acontecer, que finalmente vamos ver algo diferente, vamos conhecer um pouco sobre os maias, ver coisas únicas. Somos levados por um tour desde a favela até a pirâmide sagrada. É algo que nos mostra, até, algum senso histórico de como se organizava uma cidade maia - e os trabalhadores escravos em meio à cal é a melhor parte. Em seguida, a bizarrice se desenvolve. Imagine um daqueles bares de
Star Wars, em que se juntam alienígenas de vários planetas, cada um mais estranho do que o outro. É mais ou menos assim. Há cada figura do arco da velha circulando pela periferia da cidade, usando penteados nunca antes imaginados. Essa galeria absurda desempenha nenhum papel além de mostrar que o roteiro não tem verossimilhança, pois apesar de até habitantes de outras civilizações de outras terras estarem por lá há tempos, a tribo protagonista, que fica a um dia de distância, nunca nem ouviu falar de nada.
Bom, há a parte dos rituais, que, visualmente, parece o carnaval do Rio de Janeiro, com muitas plumas, máscaras e fantasias – talvez os maias sejam os ancestrais dos carnavalescos. É uma cena bastante eficiente e interessante, com uma bela edição criando algum estranhamento e suspense; no entanto, fica sendo apenas uma demonstração de como o filme poderia ser bom se ficasse centrado em assuntos outros que não a abnegação de um herói tipo Rambo em tirar a mulher e o filho de um buraco.
Mas tudo bem, Mel Gibson sabe dirigir um filme com alguma personalidade e inventividade, sabe tirar expressões marcantes de seus atores e sabe manter as ações dos personagens à frente de qualquer pretensão de se mostrar bom. Entretanto, ao iniciar a história em tom de comédia, fica difícil se distanciar dos risos quando as coisas bizarras acontecem. No que ele tenta causar terror e excitamento, só consegue causar risos e distanciamento, - e a tão propalada intenção de mostrar a decadência do império maia resulta em nada além de perseguições e sangue.