O amargo pesadelo de um coração valente

Depois de surpreender o mundo com o brilhantismo de seu segundo filme como diretor,
Coração Valente - cujo resultado final e sua mensagem de grandeza e dignidade vão muito além às obtidas pela maioria dos épicos dos anos 90 -,
Mel Gibson ficou nove anos sem dirigir outro filme. E, frustrando a maioria de seus admiradores, retornou com o sádico e insultuoso
A Paixão de Cristo - filme tão agressivo e ruim que foi o suficiente para que Gibson tratasse de dirigir rapidinho uma nova realização, a fim de apagar de vez os arranhões em sua própria imagem. E ainda bem que esse novo filme veio rápido, mesmo: dois anos depois do passo em falso do cineasta,
chega aos cinemas
Apocalypto.
Estão presentes, no novo filme de Gibson, muitos pontos que já puderam ser observados em
Coração Valente, sugerindo que o ator/diretor esteja buscando construir uma carreira composta por filmes coerentes entre si, e não apenas um grupo de realizações esparsas:
Apocalypto também traz um homem aparentemente comum, mas repleto de grandeza, e que extrai de seu contato com o meio onde vive forças para sobreviver às dificuldades que esse próprio meio lhe impõe: sai a Escócia do Século XIII e entra a América Central da época do descobrimento, na qual os povos que a habitavam travavam guerras entre si que pareciam um prenúncio do que estava por acontecer.

E é no meio dessas guerras entre irmãos que a trama de
Apocalypto se desenvolve, contando a pequena grande saga de um cidadão comum do império maia que, sequestrado, consegue salvar sua família e, escapando, luta para fugir de seus inimigos e reencontrar-se com a esposa e o filho.
Apesar das semelhanças observáveis entre o caráter de seus protagonistas e o modo como se relacionam com o ambiente a seu redor, Gibson não repete, em
Apocalypto, a qualidade artística de seu filme mais famoso: o cineasta comete erros sérios na construção da obra, e um desses erros é a lamentável pobreza visual que permeia a realização. Se, em
Coração Valente, a beleza da fotografia traduzia em imagens toda a grandiosidade que internamente constava no coração de seu protagonista, dessa vez o cineasta optou, de forma bastante equivocada, por um visual paupérrimo, no qual a beleza das matas e florestas centro-americanas são inteiramente desperdiçadas em um visual apático. O curioso é que
Apocalypto é um filme que requeria exatamente um tratamento visual melhor, que conseguisse traduzir em imagens os sentimentos de grandeza e o
coração valente de seu bravo protagonista. Algo que Gibson já, vitoriosamente,
fizera.
De certa forma, a opção do cineasta acaba fazendo com que seu filme se aproxime de outra realização que explora os conflitos do homem em relação à mata selvagem:
Amargo pesadelo, a super-valorizada realização de
John Boorman que também abordava
esse conflito e que, não obstante a força de seu tema, acabou por incorrer, também, no inacreditável equívoco de subestimar a força das imagens do cinema e neutralizar o seu aspecto visual - simplificando, metaforicamente, também o filme, e fazendo esvair o
seu poder. Como Boorman, também Gibson esqueceu que o Cinema é uma arte, uma força, repleta de grandeza - mas que essa grandeza precisa ser codificada em imagens e fotogramas. Sem confiar muito nisso, o cineasta escorregou, e a qualidade de
Apocalypto ficou bastante comprometida.