A família é grande. A diversão, nem tanto

Com a estabilidade do cinema brasileiro sendo, hoje, uma realidade e a indústria cinematográfica estando cada vez mais forte, uma das mais bem-vindas
consequências disto é a associação entre o cinema e televisão do país - e um dos mais saborosos frutos dessa associação é a versão, para o Cinema, de programas de sucesso da telinha. Mais que o resultado final dos produtos, que variam do maravilhoso
Os
Normais - o Filme (muito, mas muito melhor que a série televisiva) ao lamentável
Casseta & Planeta - Seus Problemas Acabaram (tão ruim quanto o programa de televisão), é o intercâmbio em si entre as duas mídias o grande sucesso, e o fator comprobatório de como a indústria audiovisual brasileira está cada vez mais forte.
Dirigido por
Maurício Farias,
A Grande Família - o Filme é um episódio estendido de um dos melhores e mais engraçados programas de humor da TV brasileira - o homônimo
A Grande Família, que há anos faz parte dos programas obrigatórios das famílias brasileiras às quintas. Pena que, em sua obrigação de tornar-se um longa-metragem, o episódio se estendeu em demasia, não encontrou assunto para se
desenvolver bem e praticamente entregou sua falta de ter o que falar: no meio do filme, o mesmo acaba e então começa a se repetir - de forma piorada.

Os primeiros minutos do filme são um verdadeiro primor, e retratam a forma como Lineu (
Marco Nanini) e Nenê (
Marieta Severo) se conheceram, 40 anos antes. Pena que tais cenas durem exatamente esses poucos primeiros minutos de filme. A partir daí, o filme volta ao tempo atual e, como foi dito acima, oferece ao público um episódio um pouco maior que os vistos na TV. Algum problema nisso? Nenhum, a princípio, até porque o seriado é ótimo. É verdade que há algumas escorregadas de ritmo e uma certa falta de sincronia entre o comedimento da direção e as imensas (inclusive fisicamente) possibilidades da tela grande. Mas nada que destrua o filme e o charme dos personagens.
O problema é que, ao chegar à metade da estória,
A Grande Família - o Filme percebe não ter mais nada para contar. Ou acha que não tem. A trama - o patriarca Lineu faz um exame de saúde e se julga com poucos meses de vida, decidindo ocultar isso de sua
família - permitiria milhões de desmembramentos durante a extensão do longa-metragem. Infelizmente, porém, o roteiro se perde e, no meio do caminho, decide voltar ao início: Lineu teria uma alucinação e, julgando-se à beira da morte, decidiria tornar-se exatamente o que nunca fora: um homem que trai a esposa, beberrão, mulherengo, irresponsável, estróina... Lineu decide se tornar um Agostinho, pode-se dizer assim. E a trama recomeça do início, repetindo todas as situações.
No seriado televisivo, se os patriarcas Lineu e Nenê sempre tiverem uma excelente empatia com o público espectador, isso se deve ao maravilhoso trabalho de seus intérpretes, claro, mas acima de tudo ao exemplo de dignidade e caráter que ambos os personagens sempre mostraram: pessoas pobres, humildes, enroladas com as contas do mês e as dívidas para pagar, mas que jamais abriram mão de sua dignidade e do amor um pelo outro. Já a filha Bebel (
Guta Stresser) e o genro Agostinho (
Pedro Cardso) funcionam, na TV, como a própria antítese do casal: um homem vagabundo e irresponsável, uma mulher fraca, frustrada e chorona. Funcionam bem na tela porque sua presença evidencia o
contraste entre o exemplo de vida de Lineu e Nenê e a incompetência pessoal e afetiva dos próprios.
Em
A Grande Família - o Filme, contudo, chega-se a um ponto em que Lineu e Nenê praticamente se tornam, por um bom tempo da metragem, uma reedição de Bebel e Agostinho. Com isso, toda a empatia do casal desaparece e eles se tornam, acreditem quem quiser (ou for assistir) tão antipáticos quanto a filha e o genro. É verdade que, claro, tudo se resolve no final. Porém, fica a dúvida na mente do espectador: foi para tornar Lineu e Nenê antipáticos que resolveram fazer o filme?