Simples, direto e eficiente

Muitas vezes, um pequeno filme do qual, a princípio, nada se espera demonstra, dentro de sua modéstia, força suficiente para tocar o coração do espectador e fazer com que este guarde uma boa lembrança das aproximadamente duas horas que passou assistindo-o - seja na sala de projeções ou em uma sessão de home video. Mesmo sem provocar grandes arroubos, é exatamente esse o caso de
Poder Além da Vida, a estória de um ginasta que sofre um acidente, fica permanentemente com um pino de metal no interior da perna e consegue dar a volta por cima e retornar à carreira.
Curiosamente dirigido pelo mesmo
Victor Salva dos dois filmes da série
Olhos Famintos - filmes que, especialmente o primeiro, também têm muito mais significados do que os observáveis à primeira vista -
Poder Além da Vida comete um pequeno grande erro quando, em sua primeira metade, dá motivos para o espectador pensar ser um filme sobre espiritualidade - a forma como o protagonista conhece o personagem de
Nick Nolte e a cena na sacada sugerem fortemente isso. Não é o caso, e tal sugestão acaba por direcionar a atenção do espectador para algo que não se concretiza no decorrer da metragem. A força do filme encontra-se, na verdade, em outro enfoque, igualmente digno e luminoso: a luta de um atleta - no caso, um ginasta - para reconquistar seu espaço na profissão que escolhera, e da qual fora ceifado após uma tragédia que o limitara fisicamente.

Mas, se o acidente impusera limites físicos na vida de Dan Millman (em eficiente desempenho de
Scott Mechlowicz), ampliara, também, a sua força moral. E é essa a estória que
Poder Além da Vida, muito mais que contar, transmite ao público: jamais devemos desistir daquilo em que acreditamos, mesmo quando as adversidades e circunstâncias tentam sugerir ser algo impossível. Direto e objetivo, mas nem por isso menos comovente em sua narrativa, o filme lembra, em muitos momentos, os pequenos manuais de auto-ajuda, que, em seu diminuto formato, têm tanta grandeza em seu conteúdo que ficam guardados em nossa mente - e estimulando nossas atitudes - com muito mais vigor que
tijolões literários cheios de empostação e vazios de significado.
A registrar, porém, o fraco desempenho de
Nick Nolte, que exagera na construção de seu misterioso personagem e o torna artificial e desnecessariamente antipático. Quem assistiu a
Karatê Kid - A Hora da Verdade e testemunhou o antológico desempenho de
Noriyuki 'Pat' Morita - personagem com quem o Socrátes de Nolte guarda muitas semelhanças temáticas - certamente irá observar a diferença de nível entre as interpretações de dois personagens-chave para seus respectivos filmes. E como, da simpatia de Morita à antipatia de Nolte, tal diferença amplia ou reduz significativamente a entrega do espectador em relação ao filme que assiste.