Reverente ao original, livre e solto enquanto cinema

Adaptado de uma obra de sucesso da recente literatura alemã, o primeiro fator observado na versão cinematográfica de
Perfume: A História de um Assassino é a elegante reverência com que o diretor
Tom Tykwer tratou o material que teve em mãos. Associado, geralmente, a filmes rebeldes como
Corra, Lola, Corra, dessa vez o cineasta soube compreender que estava dirigindo uma super-produção internacional (produzida conjuntamente por Alemanha, França e Espanha, com elenco predominantemente de língua inglesa), e teve a humildade e inteligência de inserir a força de seu estilo às necessidades específicas da película - respeitando o original mas não se limitando a este. Como resultado, realizou um filme belíssimo, quase uma nova versão de
O Colecionador, sobre um psicopata que matava mulheres para extrair-lhes o aroma.
Misto de elegância e selvageria, a trama de
Perfume: A História de um Assassino situa-se na Paris do Século XIX, um lugar que o mercado de peixe e de especiarias tornaram completamente fétido; mas que, sendo Paris, nem por isso deixa de ser a capital da sofisticação - e dos perfumes. É nesse ambiente, especificamente no mercado de peixe, que nasce o protagonista Jean-Baptiste Grenouille - admiravelmente vivido por
Ben Whishaw em sua fase adulta. Há duas coisas que fascinam por completo Grenouille: sexo e odores, e não demora muito para que o rapaz logo desenvolva uma obsessão:

produzir e reter em frascos o aroma perfeito, obtido através de mulheres mortas em um estado erotizável típico do momento em que se estaria prestes a amar.
A trama, simultaneamente romântica e mórbida, acompanha a trajetória do gênio assassino de Grenouille, da difícil infância à descoberta, por parte da sociedade, de ser ele o assassino que aterrorizava Paris - algo que em momento algum é escondido do espectador, mas que os demais personagens desconhecem. Tykwer demonstra admirável competência em mesclar sordidez e encantamento, e realiza um filme que é, ao mesmo tempo, reverente à obra que o originou e de adorável vitalidade cinematográfica. Sem dúvida alguma, um dos melhores filmes alemães dos últimos tempos.