A torre (a Terra) está prestes a cair

Uma bala perdida no Marrocos. Uma empregada que trabalha em Los Angeles querendo ir ao casamento do filho, em seu México natal. Uma adolescente com deficiência auditiva em conflitos com o pai, no Japão. Situações que não tem nada a ver uma com as outras, certo?
Errado.
Em um período da vida na Terra em que cada vez mais todas as pessoas estão conectadas entre si, fica praticamente impossível declarar que acontecimentos aparentemente tão díspares não possam ter relação alguma. E é sobre isso, sobre o interrelacionamento
entre povos e situações a princípio tão diferentes, e sobre a dificuldade de comunicação entre todos esses povos - que
Babel, o brilhante filme do diretor
Alejandro González Iñárritu, aborda: de como um acontecimento em um região ainda definida como longínqua pode afetar, direta ou indiretamente, a vida de qualquer outra pessoa, em qualquer outro lugar do planeta. E como, mesmo estando todos nessa teia de
interrelacionamento, ainda assim nós, os terráqueos, nos julgamos tão diferentes um do outro, e nos estranhamos tanto - em todos os sentidos desse último verbo.

Segundo a Mitologia, Babel foi uma torre em formato de espiral, construída para receber integrantes de todos os povos. Contudo, cada um falava um idioma diferente dos demais, e assim não conseguiam se entender. A falta de entendimento resultou em
desentendimento, e a torre que deveria unir os povos acabou por levá-los à destruição. Uma possibilidade sinistra para o mundo, mas nem um pouco absurda, se consideramos o nosso dia-a-dia e a realidade atual do planeta, onde um acesso a um
computador pode fazer com que um habitante do Butão converse com alguém da Terra do Fogo e um produto cultivado na Noruega possa ser instantaneamente adquirido no Taiti - mas no qual as pessoas acreditam cada vez menos em Deus, cultivam cada vez menos o amor e se envolvem cada vez mais em guerras. Paradoxalmente, quanto mais fácil fica o mundo para se estabelecer uma conexão, mais dificil está para haver comunicação.
Merecidamente premiado com o Globo de Ouro de melhor filme dramático de 2006,
Babel aborda exatamente essa perigosa contradição, de um mundo integrado do ponto de vista físico mas inteiramente fragmentado enquanto planeta habitado pela raça
humana, devido ao cultivo de valores que deveriam, a princípio, ser execrados do comportamento social da Terra: egoísmo, preconceito, frieza, irresponsabilidade, descaso com o próximo, facilidade em se ter e adquirir armas.
Babel seria um filme pessimista? Talvez. Mas é tão verdadeiro em sua denúncia, tão bem-sucedido na forma como expõe e desenvolve o questionamento que se propôs abordar, que esse pessimismo reflete como um raio de esperança, pela lição que transmite ao espectador: vejam o mundo
que estamos construíndo, devido aos valores que estamos pregando. Mirem no exemplo de
Babel (filme e torre): o mundo está assim. Está mas não é. E nem precisa ser, e para melhorar só depende de nós.