Fantasia ao estilo de Jacques Demy

Os muitos admiradores do cinema de
Jacques Demy - cineasta de
Os Guarda-Chuvas do Amor e
Pele de Asno, entre outros grandes momentos da arte - certamente têm, como um dos (muitos) motivos dessa admiração, a capacidade do diretor de, mesmo em
live-action, realizar filmes dotados de um estilo encantatório, revestidos com tamanha aura de fantasia que podem ser definidos como obras quase com um pé no cinema de animação - estilo que, exatamente por sua forma de ser realizado (através da criação livre e genuína das imagens e não da filmagem de pessoas e locais que realmente existam), seria, em tese, o único a ser dotado desse encantamento tão especial.
Por isso tudo, é curioso observar como, quase como uma homenagem a Demy, seu conterrâneo, o francês
Michel Ocelot (de
Kiriku e a Feiticeira), realizou uma das melhores animações européias dos últimos tempos -
As Aventuras de Azur e Asmar. A trama do filme, muito bem desenvolvida na tela, tem toques de
O Príncipe do Egito e da obra literária
O Príncipe e o Mendigo - mas, na verdade, não é o roteiro do filme o seu ingrediente mais importante.
As Aventuras de Azur e Asmar é um poema visual (pode-se dizer até que seria um poema sensorial), no qual Ocelot emprega os sons, as imagens, o ritmo e todos os itens que fizeram do
Cinema o espetáculo que é para um verdadeiro show de beleza, magia e cores. Como também o são
Os Guarda-Chuvas do Amor e
Pele de Asno.
Quem assistiu ao belíssimo
As Bicicletas de Belleville teve a oportunidade de perceber o quanto a animação francesa tem evoluído. Agora, Ocelot, especialista no gênero, (e)leva essa evolução a níveis ainda maiores, demonstrando um amadurecimento nítido em sua arte: dispondo-se a empregar todas as técnicas que tem em mãos para a elaboração de seu filme e sua condição de espetáculo, o cineasta revela um admirável domínio para atingir o fim a que se propõe e demonstra, a cada fotograma, o quanto sabe empregar as técnicas do Cinema para seduzir e encantar o espectador.
Lembrando, também, o cinema coreográfico de
Busby Berkeley,
As Aventuras de Azur e Asmar é um filme curto, como a maioria dos filmes de animação - possui 99 minutos. Mas cada um desses minutinhos é tão bem desenvolvido na tela que o espectador não consegue sequer desviar seu olhar durante a projeção: o filme é um show de beleza, um filme mágico, absolutamente deslumbrante, uma experiência sensorial que transcende o imaginário e os limites físicos que roteiro e fotografia possam impor. Se não se dispusesse, também, a contar uma estória - algo coadjuvante na excelência do filme, mas que existe e que acontece de forma muito bem conduzida - o filme poderia, também, ser comparado a
Fantasia e
Fantasia 2000, dos Estúdios Disney.
A narrativa do filme - de duas crianças, uma rica e outra pobre, que cresceram juntas se adorando como irmãos - existe, é muito bem narrada, mas
As Aventuras de Azur e Asmar foi criado por Ocelot para algo muito maior que contar bem a sua adorável
estória: o objetivo maior do filme é libertar-se de amarras, cativar o público e oferecer a este momentos de puro deleite. Pode parecer pernóstico? Talvez, a princípio, sim. Mas a magia e encantamento do Cinema estão tão lindamente expostos na tela que essa impressão se esvai como uma miragem cinematográfica logo nos primeiros minutos da projeção.
Finalizando, um destaque interessante nos créditos do filme: quem dubla a meiga Jenane, mãe de uma das crianças e babá da outra, é a atriz israelense
Hiam Abbass, de
Jesus - A História do Nascimento,
Munich e
Paradise Now.