Grande jogo, pequeno filme

Século XXI, a tecnologia está cada vez mais presente na vida de cada um dos seres humanos desse planeta, ao alcance de todos, certo? Errado. E é com essa falta de acesso às coisas que nos parecem tão onipresentes no nosso dia-a-dia que o filme
A Grande Final brinca.
O diretor espanhol
Gerardo Olivares, o mesmo do documentário
Caravanas, nos apresenta a três culturas completamente distintas entre si e isoladas, mas com um desejo em comum: assistir ao jogo final da Copa do Mundo de Futebol de 2002, entre Brasil e Alemanha. Das isoladas montanhas nevadas da Mongólia, passando pelo interminável deserto de Niger até chegar a uma tribo indígena do Amazonas, o desejo de assistir e torcer de cada uma dessas pessoas é proporcional à dificuldade de conseguirem um mínimo sinal para seus velhos televisores.
Apesar da premissa interessante, que nos faz lembrar do documentário
“Todos os Corações do Mundo” que o diretor
Murillo salles realizou sobre a Copa do Mundo de 94, o filme tem um grande problema que está justamente relacionado a palavra “brincar”. O tom de comédia-pastelão, escolhido para o diretor, talvez não fosse o mais adequado para nos mostrar algo que poderia ser levado extremamente a sério, se realizado em forma de documentário (terreno onde o diretor é mais familiarizado), por exemplo. Poderia se discutir sobre como o esporte transforma os indivíduos, sobre a união dos povos através da comunicação etc.
Não quero parecer ranzinza nem menosprezar o gênero que consagrou grandes artistas como
Jerry Lewis, mas a falta de habilidade do diretor nos faz crer que aquela é apenas uma brincadeira de mau gosto com grupos que estão tão distantes daquilo que chamamos de civilização. A opção de usar pessoas que praticamente se auto-interpretaram aumentam essa sensação. É evidente a ingenuidade de cada um desses “atores”, que são usados como marionetes para as forçadas idéias de
Olivares. É triste ver como todas as peculiares expressões culturais desses grupos são praticamente esquecidas em troca de uma fraca piada que já vimos em algum filme perdido na
Sessão da Tarde.
Apesar de tudo, um mérito do filme é a belíssima fotografia de cada um dos lugares escolhidos. Nas gélidas montanhas da Mongólia, a cena das caças com águias é impressionante, assim como a simples moradia dos personagens, que, aliás, nos faz lembrar imediatamente de
“Camelos Também Choram” . Em uma inversão térmica de arrepiar, estamos num fervente deserto africano, onde a imensidão marrom clara se contrapõe com um caminhão lotado e as vibrantes cores das roupas de seus passageiros. Já em terras tropicais, é quase impossível pensar que, no mesmo país, há tanto cinza, tanta poluição, mas também tanto verde e terras (ainda) inexploradas.
As impossíveis situações de
A Grande Final (como a relação entre os índios e os homens brancos) servem apenas para nos deixar com saudades daquele jogo que consagrou
Ronaldo e cia. e deu ao Brasil o pentacampeonato Mundial de futebol. Minha dica? Se for para gastar 90 minutos, veja a reprise do jogo.