Por Thiago Augusto — Quinta, 11 de janeiro de 2007
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A ilustração do Hitchcock é trazida por Celso Ace. Não se esqueçam de conferir o trabalho do ilustrador de Celso Ace no site Acido Gráfico. Para trocar uma idéia com ACE acessem seu blog Elefante Branco
Alfred Hitchcock foi um das mais importantes personagens que o cinema já teve. Como diretor e produtor, foi pioneiro em várias técnicas que contribuíram significativamente os gêneros de suspense. Sua produção se confunde com a própria história do cinema, afinal ele viveu por 60 anos envolto com a nona arte, dirigindo mais de 50 filmes, desde a era dos filmes mudos, passando pela introdução do som, até a colorização das películas. Pode-se a firmar com segurança que Hitchcock foi, em vida, um dos diretores mais conhecidos pelo grande público e ainda hoje é um dos mais admirados, entre eles, importantes profissionais do cinema como Davi Mamet, o qual dirigiu O Assalto, um filme cheio de referências “hitchcockianas”, bem como é roteirista de Intocáveis, entre tantos outros.
Considerado o mestre do suspense, Hitchock esforçava-se por sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao diretor francês François Truffaut, explicou que “na forma vulgar do suspense é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa”. Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que os personagens desconhecem. Durante a entrevista, Hitchcock acrescentou ainda que existem muitas situações em que “o suspense não está ligado ao medo”, mas sim à emoção.
Vale dizer que essa pérola, conversas, amenidades e outros conceitos geniais sobre cinema entre estes dois grades nomes da nona arte podem ser conferidos no livro Hitchcock/Truffaut: Entrevista, da Companhia das Letras.
A maioria dos filmes de Hitchcock compartilham de pequenas semelhanças, quase supersticiosas. Como o fato de muitos protagonistas beberem brandy, o número 13 estar presente, mesmo que sutilmente em várias cenas e escadas. É verdade que muitas delas criaram grandes cenas de suspense, mas alguém me explica a necessidade de uma escada, que não leva a lugar nenhum, no apartamento do repórter de Janela Indiscreta.
Por vezes, ele passeia livremente entre as personagens, mas, em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra , sempre com uma certa dose de ironia.
Hitchcock nasceu em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, em 1956 ganharia cidadania americana. Filho de um casal de vendedores de galinhas e hortaliças, Alfred Joseph Hitchcock tinha um irmão e uma irmã mais velhos. O futuro diretor sempre teve severa educação graças a seus católicos pais, como todo jovem que vive em um ambiente cheio de regras, procurava quebrá-las ocasionalmente. Conta-se que uma vez foi castigado, por seu pai, a passar alguns “longos” minutos preso em uma delegacia. A partir daí Hitchcock desenvolveria uma aversão a policiais, os quais, ironicamente estavam quase sempre presentes em seus filmes.
Como sua família não possuía grandes posses, foi mandando para ser educado pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante cerca de seis anos. Após o falecimento de seu pai em 1914, Hitchcock decide freqüentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Cerca de três anos depois, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.
Foram esse contanto com a arte que o levaria ao cinema. Em 1919, com apenas 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego na área cinematográfica. Foi nos estúdios da Players-Lasky, onde desenhava os títulos nos filmes, e acabaria aprendendo várias funções a habilidades ligadas a produção de filmes, entre elas, roteirizar, editar e fotografar. Sua primeira chance de dirigir aconteceu em 1922, quando ele substituiu o diretor Always Tell Your Wife. A partir de 1923 Hitchcock se entregou a escrever uma série de roteiros, foi nesse mesmo ano que conheceu sua futura esposa Alma Reville.
Em 1925 Hitchcock teve a chance de realizar, na íntegra, um filme. O Jardim das Delícias foi elogiado pela crítica e aceita pelo grande público. O sucesso desse longa abriu outras oportunidades para ele realizar novos trabalhos. Entre eles, O Inimigo das Loiras (1926), considerado por ele como “o primeiro filme hitchockiano”. O filme fala sobre Jack, um homem que é injustamente acusado de um crime após ser confundido com Jack, o Estripador.
O casamento com Alma deu-se em Dezembro de 1926 e a única filha do casal, Patricia, nasceu a em 1928. Lenda ou não, conta-se que, durante a gravidez, Hitchcock não conseguia olhar para Alma, que, além de sua mulher, era a sua mais próxima colaboradora no cinema.
Um ano depois, os filmes falados, conhecidos como talkies, chegaram aos estúdios britânicos. Hitchcock logo incorporou a nova tecnologia e assim Chantagem, tornar-se-ia num dos primeiros filmes sonoros ingleses. Mas seu maior êxito dessa época foi O Homem que Sabia Demais (1935) com Leslie Banks, graças a ele, seu nome foi projetado além de seu país. Mas como sua sede pelo cinema era insaciável, logo dirigiria mias dois sucessos Os 39 Degraus e A Dama Oculta.
Sua "fase inglesa" vai até 1939, com o filme A Estalagem Maldita, quando se mudou para os Estados Unidos, graças ao contrato com o produtor David Selznick, que tinha em seu currículo filmes como E o Vento Levou e Começou em Nápoles. Aliás, esse convite veio em hora providencial, pois logo depois romperia a Segunda Guerra Mundial.
Ficou acertado que Hitchcock receberia 800 mil dólares para produzir cinco filmes. Avesso a badalações tão comuns em Hollywood, o britânico procurava ficar o mais longe possível de qualquer festa produzida pelos estúdios e astros, o que, conseqüentemente, contribuiu para criar a sua aura de "senhor do suspense e do mistério".
Selznick acertou em cheio, pois o primeiro filme desse acordo, Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940), acabaria sendo nomeado para algumas categorias do Oscar e levaria a estatueta de melhor filme. A história conta o drama de uma jovem que se casa com um homem viúvo. Conforme a trama avança a jovem começa ser atormentada pelas fortes memórias que a falecida ainda exerce na casa e na vida de todos que a conheceram, em especial na empregada da casa. Nesse projeto Hitchcock desponta ao utilizar técnicas extremamente avançadas, como efeitos de luz e longos planos seqüentes.
Ainda em 1940 produziria o Correspondente Estrangeiro, filme que trata de conspirações internacionais descobertas por um simples correspondente estrangeiro curioso a trabalho. Nesse filme, Hitchcock utiliza pela primeira vez um recurso que se tornaria sua marca registrada posteriormente, o famoso MacGuffin. É uma técnica de roteiro que permite o diretor prender as pessoas à história sob algo que, na verdade, não é interessante para sua resolução. Um ano depois dirigiria o filme Suspeita, o qual conta o desespero de um socialite que desconfia que seu galante marido seja na verdade um assassino, e que ela seja sua próxima vitima. A atriz Joan Fontaine, que interpretava a protagonista ganhou um Oscar de melhor atriz pelo seu desempenho. Vale a pena lembrar que ela também atuara brilhantemente em Rebecca.
Nos anos seguintes, filmaria o Sabotador (1942), A Sombra de uma Dúvida (1943), Quando Fala o Coração (1945), Interlúdio (1946) e Agonia de Amor (1947). Em 1948 arrisca-se ao realizar Festim Diabólico, um filme extremamente complexo e ousado, rodado todo com apenas oito cortes, que exigiu que os atores ensaiassem exaustivamente e a criação de cenários móveis para facilitar a movimentação da câmera. Apesar do ótimo resultado final, Hitchcock nunca mais a usou, pois o custo para usá-la acabou se mostrando muito caro.
Filmaria, em 1951, Pacto Sinistro e, em 1954, Disque M para Matar e Janela Indiscreta. Para esse filme recriou uma enorme vizinhança nos estúdios da Paramount para poder ambientar sua trama em que um jornalista com a perna fraturada, interpretado por James Stewart, que espia a vida de seus vizinhos através de um telescópio e, acidentalmente, presencia uma possível assassinato cometido por um deles. Esse filme conta com a presença de Grace KeelyNo ano seguinte Hitchcock dirigiria Ladrão de Casaca que se revelaria muito mais como um romance do que suspense. A ele se seguiriam, O Homem Errado (1956) e sua outra versão de O Homem que Sabia Demais (1956), esse último trazia James Stewart e Doris Day como um casal que vê sua vida mudada bruscamente em meio a uma inocente viagem de férias. À beira da morte, um agente secreto francês conta a um médico americano, interpretado por Stewart, sobre um plano para assassinar um diplomata durante um concerto. Para impedir que a informação chegue à polícia, os conspiradores seqüestram o filho do médico. E assim cabe a ele a difícil decisão de deixar um inocente morrer pela vida de outro.
Em 1955, ganhou o seu próprio programa de televisão (“Alfred Hitchcock Presentes...”), o que aumentou muito a sua popularidade e o transformou em um homem rico. O programa que trazia diversos episódios com histórias de crimes e mistérios durou até 1961.
Dois anos depois realizaria Um Corpo que Cai e novamente teria James Stewart como protagonista. Ele interpreta um detetive preste a se aposentar. Ele é contratado por um amigo para seguir sua mulher e acaba se apaixonando por ela. Depois de sua morte, tem que enfrentar todo o drama psicológico de achar estar sendo assombrado pela lembrança dela, interpretada por Kim Novak. É importante comentar que o título original, Vertigo, vertigem em inglês, se relaciona diretamente à fobia e o trauma que o personagem de Stewart sofre.
Demoraria ainda dois anos, para que Hitchcock cria-se, na opinião de vários críticos, sua maior obra. Em 1960 o diretor ousou não só na técnica como ao usar fortes imagens ao rodar Psicose. O filme começa com a fuga de Marion, uma secretária que roubara rouba 40 mil dólares para se casar. Durante a fuga, erra o caminho e chega em um velho motel, onde é amavelmente atendida pelo dono Norman Bates, interpretado por Anthony Perkin. Ao se registrar a moça acaba escutando a mãe do rapaz, dizendo, que não deseja a presença de uma estranha. Mal sabia ela se envolveria em uma trama bizarra, que resultaria em sua morte. Aliás, este já é um ponto alto e inovador, afinal Hitchcock mata a estrela principal nos minutos iniciais do filme. Outra característica do filme, é que ele foi rodado em preto e branco, pois o diretor queria criar um contraste com o sangue em seu filme, que na verdade eram litros e litros de calda de chocolate. Outra curiosidade gastronômica, o som da faca perfurando o corpo de Marion é, na verdade, o som de um melão sendo encravado várias vezes.
Três anos depois viria Os Pássaros. O filme relata um absurdo comportamento perpretado pelos pássaros que vivem nos arredores de uma isolada comunidade chamada Bodega Bay. Inexplicavelmente eles começam a agredir as pessoas constantemente e sem aviso. Assim Hichcock provoca uma angústia crescente no espectador, o qual não sabe o que esperar para a cena seguinte. O final é mais uma genial sacada do diretor, que, contrariando o roteiro original, deixou o filme sem desfecho, o que, sem dúvida incomoda grande parte, talvez a maioria do público.
Por fim realizaria Marnie, Confissões de Uma Ladra (1964), Cortina Rasgada (1966), Topázio (1969), Frenesi (1972) e Trama Macabra (1976). Quatro anos depois, no dia 29 de abril, Alfred Hitchcock faleceria, em Los Angeles, aos oitenta anos, em conseqüência de insuficiência renal.
E para concluir: Alfred Hitchcock versus Steven Spielberg pelo de título maior diretor.
Filmografia
Filmes mudos
1925 - The Pleasure Garden
1926 - The Mountain Eagle
1927 - The Lodger: A Story of the London Fog (O inquilino ou O locatário)
1927 - Downhill
1927 - The Ring (O ringue)
1928 - Easy Virtue, baseado numa peça de Noel Coward
1928 - The Farmer's Wife ( A mulher do fazendeiro)
1928 - Champagne
1929 - The Manxman (O ilhéu)
[editar] Filmes sonoros
1929 - Blackmail ( Chantagem e confissão)
1930 - Juno and the Paycock
1930 - Murder! (Assassinato )
1930 - Elstree Calling
1931 - The Skin Game
1931 - Rich and Strange (Ricos e estranhos)
1932 - Number Seventeen ( O mistério número 17)
1934 - Waltzes from Vienna
1934 - The Man Who Knew Too Much (O homem que sabia demais)
1935 - The 39 Steps ( Os 39 degraus)
1936 - Secret Agent (O agente secreto)
1936 - Sabotage (O marido era o culpado), adaptado de The Secret Agent de Joseph Conrad
1937 - Young and Innocent
1938 - The Lady Vanishes (A dama oculta)
1939 - Jamaica Inn (br: A estalagem maldita), com Charles Laughton
1940 - Rebecca (br: Rebeca, a mulher inesquecível), o único a vencer o Óscar de Melhor Filme
1940 - Foreign Correspondent (Correspondente estrangeiro)
1941 - Mr and Mrs Smith (Um casal do barulho)
1941 - Suspicion ( Suspeita)
1942 - Saboteur (Sabotador)
1943 - Shadow of a Doubt (A sombra de uma dúvida )
1944 - Lifeboat (Um barco e nove destinos)
1044 - Aventure Malgache
1944 - Bon Yoyage
1945 - Spellbound (Quando fala o coração)
1946 - Notorious (Interlúdio)
1947 - The Paradine Case (Agonia de amor)
1948 - Rope (Festim diabólico)
1949 - Under Capricorn (Sob o signo de capricórnio)
1950 - Stage Fright (Pavor nos bastidores)
1951 - Strangers on a Train (Pacto sinistro)
1953 - I Confess (A tortura do silêncio)
1954 - Dial M for Murder (Disque M para matar)
1954 - Rear Window (Janela indiscreta)
1955 - To Catch a Thief (Ladrão de casaca)
1955 - The Trouble With Harry (O terceiro tiro)
1956 - The Man Who Knew Too Much (O homem que sabia demais), remake do filme de 1934
1956 - The Wrong Man (O homem errado)
1958 - Vertigo ( Um corpo que cai) Não esquecendo a genial tradução para Portugal A mulher que viveu duas vezes)
1959 - North by Northwest (Intriga internacional)
1960 - Psycho (sicose)
1963 - The Birds (Os pássaros)
1964 - Marnie (br: Marnie, confissões de uma ladra)
1966 - Torn Curtain (Cortina rasgada)
1969 - Topaz (Topázio)
1972 - Frenzy (Frenesi)
1976 - Family Plot (br: Trama macabra - pt: Intriga em família)