Benigni teima em achar que a guerra é bela...
Roberto Benigni era um cineasta médio do cinema italiano, responsável por obras até interessantes, como
O Pequeno Diabo,
Johnny Stecchino e a melhor de todas,
O Monstro, até que, em 1998, com
A Vida É Bela, adquiriu repentinamente status de gênio e de grande nome do cinema italiano. Um prestígio, diga-se de passagem, exageradíssimo: uma análise mais atenta e desprovida de paixões certamente revelará uma série de equívocos no filme que consagrou Benigni.
A mais importante (e séria) de todas: a postura antiética do personagem principal, um pai que, capturado pelos nazistas durante a Guerra e levado com seu filho para um campo de concentração, esconde da criança a situação que eles (e o mundo) estavam atravessando e passa todo o tempo definindo a Segunda Guerra Mundial como uma brincadeira, um jogo, ou uma farsa.
Por melhor que tenham sido as intenções do Guido Orefice vivido por Benigni, a verdade é que o que ele e o filme defendiam era a exaltação da hipocrisia, dentro de uma

justificativa moral contestável e que incomodava o espectador a cada momento em que a guerra era definida, para o filho, como uma gincanazinha ou algo assim. Uma certa construção visual excessivamente adocicada acabava por incomodar ainda mais, pela total falta de sincronia com a temática do filme ou, ao menos, com a realidade que - conscientes ou não - os personagens viviam.
Depois do fracasso de seu último filme,
Pinocchio, de 2002 - que, aqui no Brasil, seria lançado nos cinemas mas acabou não o sendo, indo direto para o mercado de DVD - Benigni decidiu voltar ao tema proposto em
A Vida É Bela, e realizou, com este
O Tigre e a Neve, um filme bastante similar a seu maior sucesso. Inclusive nos equívocos.
Assim como fizera em
A Vida É Bela, também em
O Tigre e a Neve Benigni glamouriza excessivamente a guerra, questionavelmente usando-a para estimular a graça. Dessa vez, ele interpreta Attilio de Giovanni, mais um dos personagens atrapalhados e sem-graça que o ator adora interpretar. Attilio é um apaixonado por Vittoria (a fraquíssima atriz
Nicoletta Braschi, esposa do cineasta), que viaja para o Iraque dias antes da eclosão da guerra.
O apaixonado Attilio, preocupado com sua amada, decide então viajar para o mesmo país, atrás dela. Contando-se assim, tem-se até a impressão de que
O Tigre e a Neve poderia ser um filme cativante, romântico. Não, não é. A má direção e o péssimo trabalho do ator (e da atriz) acabam por estragar tudo. Mesmo porque, mais uma vez, a guerra é enfocada por Benigni de forma excessivamente leviana e hiper-glamourizada.
É importante acrescentar que, ao contrário do que provavelmente deve acreditar, Benigni não é carismático nem tem talento artístico suficiente para cativar o espectador. Somando-se essa sua inabilidade a uma temática altamente questionável do ponto de vista moral, o que se pode dizer é que
O Tigre e a Neve é um filme cujo único mérito seria, espera-se, o de finalmente desmascarar perante os espectadores a visão de guerra e a falta de talento de Roberto Benigni.