O planeta água fica ainda mais lindo não sendo todo azul...

De tudo que foi apresentado pelo Cinema nas duas últimas décadas, talvez a mais grata surpresa tenha sido a evolução do cinema documentário - seja pela alta qualidade da produção apresentada, seja pelo sucesso comercial de boa parte do gênero que já foi definido como
O Cinema Verdade, seja até mesmo pela cada vez mais volumosa quantidade de documentários que vêm sendo feitos, muitos até mesmo por equipes já consagradas - enterrando de vez a tese de que documentários seriam apenas uma ocupação de cineastas iniciantes que aguardam oportunidades que pudessem ser definidas como melhores...
E, dentro do gênero do cinema documentário, se há um o subgênero que tem se destacado muito particularmente, esse subgênero é o do documentário ecológico. Não por acaso, ano passado os principais prêmios do Cinema para o documentário foram entregues a filmes dessa linha:
A Marcha dos Pinguins, de
Luc Jacquet, ganhou o Oscar da categoria;
O Homem Urso, de Werner Herzog, foi considerado o melhor pela crítica nova-iorquina.
Coincidência? Não, mesmo porque estas não existem.

O que se verifica com esse episódio é a definitiva comprovação de como o documentário ecológico está evoluindo.
E o mais recente exemplar de
Cinema Verdade a incursionar por essa linha é o excepcional exemplar franco-canadense
O Planeta Branco. Ao contrário de seus premiados congêneres, o filme co-dirigido por
Jean Lemire,
Thierry
Piantanida e
Thierry Ragobert não conta,
a priori, com bichinhos bonitinhos ou encantadoras imagens da natureza para se apoiar.
Situado no árido universo do Pólo Ártico, mas sem contar com a beleza de espécies que sejam cativantes por si só para ilustrar sua narrativa,
O Planeta Branco poderia, em outras mãos, incorrer no risco do excessivo monocromatismo, a partir do momento em que optou por filmar imagens de uma região em que, por necessidades miméticas da natureza, a maioria de seus habitantes são animais brancos que vivem em um habitat branco - o título do filme, por sinal, não poderia ser mais apropriado.
Mas é muito particularmente nesse quesito que fica explicitada a sagacidade de seus diretores, por sinal todos estreando no Cinema: o trio demonstra arrojo e visão cinematográfica ao trabalhar o monocromatismo do branco de forma a tornar a cor - que, por natureza, já é comprovadamente cansativa para os olhos, se visualizada em excesso - uma auxiliar dos movimentos, das formas e das expressões dos animais. Sem, por um
segundo sequer, querer diminuir a altíssima qualidade de
A Marcha dos Pinguins e de
O Homem Urso, é inegável que ambos os filmes contaram, a seu favor, com a fofurice de seus personagens (o primeiro) e a beleza de suas ambientações (o segundo).
Já
O Planeta Branco não teve tais ingredientes a seu lado.
Porém, tendo sido trabalhado de forma tão inteligente por seus três diretores, que elaboraram uma fenomenal construção visual para o filme, a realização acaba por se revelar a melhor da tríade de documentários ecológicos, conquistando o espectador pela beleza de imagens que, a princípio, não seriam belas.
E merece registro a observação de que, dos três filmes mencionados,
O Planeta Branco é o que mais avidamente penetra no dia-a-dia da fauna da região abordada. Deslumbrante em sua forma e minuciosamente rico em seu conteúdo, não nos parece absurdo sugerir que
O Planeta Branco já surge como fortíssimo candidato a ser o melhor documentário de 2007.