Estréia 5 de janeiro
Camas, motéis e nada mais

Não é de hoje que
Wong Kar-Wai tem sido um dos mais incensados cineastas asiáticos. Pior: não é raro ver o cineasta ser apontado como um dos grandes românticos do cinema daquele continente. Um exagero, porque basta assistir a seus filmes para observar que a característica maior do cineasta é a sua grande dificulade em transmitir algum tipo de sentimento ao espectador.
Realizado em 1991,
Dias Selvagens é um dos primeiros filmes do cineasta, e foi feito em um momento cinematográfico em que eram comuns filmes repletos de personagens jovens e insatisfeitos, não raramente incorrendo no submundo e na marginalidade - do russo
Taxi Blues ao americano
Zandalee - uma mulher para dois, por exemplo. Esses filmes, de qualidades artísticas diferentes, não fizeram sucesso na época e hoje estão praticamente esquecidos - e é intencional terem sido utilizados como exemplo.
Dias Selvagens é o segundo filme de Kar Wai, em uma época em que

ele ainda era um cineasta desconhecido, e igualmente não chamou a atenção: no início dos anos 90, em pleno boom de tantos filmes similares, se obras parecidas e até melhores que
Dias Selvagens não chegaram a fazer sucesso, isso acaba sendo bem mais representativo que as expectativas e aplausos que o diretor vem desfrutando ultimamente.
Quem assistiu aos super-valorizados
Amor à Flor da Pele e
2046 - Os Segredos do Amor já pode ter uma noção do que irá ver em
Dias Selvagens: um casal (no caso, um trio) se conhece e passa a viver uma paixão carnal. Kar Wai, desde aquela época, teimava em concentrar suas narrativas nos quartos e motéis do Extremo Oriente. Um elogio que se possa fazer ao cineasta é que, apesar disso, ele não apela para a nudez.
Mas isso acaba, ironicamente, soando ainda pior, porque o diretor se torna um dos poucos cineastas que conseguem ser ainda mais vulgares do que o tolerável com os personagens estando vestidos. Como nos demais filmes de Kar Wai, a impressão que se dá é que seus personagens só pensam e só querem sexo.
Talvez o único real valor que se possa observar no filme, e por extensão à obra de Kar Wai, é a excelência da trilha sonora. Diferente de suas imagens - que, apesar das fotografias premiadas de muitos de seus filmes, são sinistras e feias - , a trilha sonora dos filmes de
Wong Kar Wai é o único quesito técnico que consegue trasmitir alguma beleza, algum vestígio de amor perdido ou não correspondido.
Um tipo de amor que, percebe-se, o diretor gostaria de abordar em suas realizações, mas que não consegue.
Dias Selvagens relata conflitos que, se declarando afetivos, criam-se e resolvem-se apenas nos quartos de pensões e nas camas de motéis - uma estrutura que o cineasta repetiria em seus filmes posteriores, e que é muito pouco para representar o Cinema, e quase nada para representar o Amor.