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MPB: Marketing Popular Brasileiro
Por Gabriel Gurman — Segunda, 25 de dezembro de 2006
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Há algum tempo, o mundo cultural vem criando uma significativa dependência das grandes empresas. É muitíssimo raro encontrar alguma produção cinematográfica, peça de teatro ou qualquer outra manifestação artística que não seja patrocinada por alguma delas, principalmente no Brasil. Aliás, há filmes completamente parados, no meio da produção, por não terem mais recursos financeiros para finalizá-los ou distribuí-los.
Da mesma maneira que as empresas se tornaram fundamentais para a cultura, percebeu-se que as artes poderiam ser mais do que ferramentas de patrocínio. Isso começou com o merchandising. Não é difícil de observar, em algumas novelas e filmes, essa ferramenta do marketing, que, aliás, é cada vez mais descarada. Obviamente não é por acaso que em muitos filmes americanos os personagens tomam seus cafés no Starbucks, ou usam tênis Nike etc.
Com a evolução da internet, observou-se uma brecha que logo foi aproveitada pelo mundo da publicidade. Algumas empresas como a BMW, Pirelli, entre outras, produziram verdadeiras superproduções para divulgarem suas marcas. O resultado foi um grande sucesso e, através do boca-a-boca, trouxeram o resultado esperado para as corporações. No caso da BMW, por exemplo, foi criado um site que reunia filmes em curta-metragem de famosos diretores, como Guy Ritchie, John Woo, Ang Lee, Wong Kar-Wai e Alejandro Gonzáles Iñárritu.
Aqui no Brasil, os grafites publicitários na rua prenunciaram o pior: a frase “Eterna Busca do Valor mais Puro” e, logo abaixo, um desenho de Seu Jorge. Instigado pela curiosidade, fui atrás da novidade deste artista que ganhou destaque com sua participação no filme Cidade de Deus e, em um curto período de tempo, passou do título de “nova música de qualidade brasileira” para um mero cantor de massas, ao lado de Ana Carolina.
Eis que, para a minha surpresa (ou não), a canção “Eterna Busca” ,que pode ser ouvida aqui, não é nada mais do que um jingle escondido em canção para a marca de cachaça Sagatiba.
Não tenho nada contra artistas que fazem jingles ou cedem suas músicas para algumas empresas. Quer dizer, a não ser que uma banda que se diz contra o sistema faça uma propaganda para a Coca-Cola, por exemplo. Para mim, o grande problema é que essa canção de Seu Jorge, que estará em seu próximo cd (a ser lançado em fevereiro), está sendo divulgada, não como um jingle, mas como uma música “normal”. Não é raro escuta-la nas principais rádios.
Apesar de ser um fato aparentemente novo, é interessante lembrar um caso similar que ocorreu com os Mutantes. No distante ano de 1969, a banda gravou uma música para a Shell. No caso, a intenção era ser um jingle mesmo, mas, devido a sua qualidade e a imensa sutileza da letra, a canção acabou entrando no disco "Mutantes", como a faixa "Algo Mais".
Além da música de Seu Jorge, a campanha da Sagatiba, (na qual foram investidas algumas dezenas de milhões de dólares) envolve um filme-documentário sobre o Brasil. O filme, aliás, que foi recentemente exibido no Festival de Cannes (onde muitas obras brasileiras de qualidade não conseguem estar por falta de patrocínio e apoio) é uma série de clichês. Verão, bundas, caipirinha e futebol.
Pelo que se observa, as artes são, agora, apenas mais uma forma de vender a marca de uma empresa. Num país onde leis de incentivo fiscal ou de Direitos a Cultura mal funcionam, cabe ao próprio artista julgar se o dinheiro oferecido é suficiente para comprar sua arte. Esperamos que não.
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