Beethoven sem segredos

Você diria para uma mulher pobre, tuberculosa, grávida do quinto filho, casada com um homem que sofre de sífilis, cujo primeiro filho nasceu cego, o terceiro é surdo e o quarto também está com tuberculose, para abortar a criança que está em seu ventre? Se você disse sim, meus parábens: você acabou de matar Ludwig Van Beethoven.
O exemplo acima tornou-se paradigma dos que lutam para assegurar a todos o mais elementar dos direitos humanos: o direito à vida. E, assistindo-se à competente biografia
O Segredo de Beethoven, torna-se impossível não observar como alguém que acabaria se tornando um exemplo (indireto ou não) na defesa da vida tivesse nos oferecido uma existência tão complexa e tão apaixonante.
Unanimemente respeitado como músico, o compositor alemão
Ludwig Van Beethoven (no filme, vivido de forma simplesmente extraordinária por
Ed Harris) está longe de ser um exemplo de postura como ser humano: na linha do brilhante
Amadeus, de
Milos Forman - uma obra-prima que não é passível de comparações - o filme da sempre competente diretora
Agnieszka Holland nos oferece um registro dos últimos anos dessa vida brilhante, e não se equivoca ao nos revelar um Beethoven genial como compositor,

porém repleto de erros como ser humano - em certos momentos, Ludwig chega a ser irritante, como na cena na qual destrói perversamente o projeto arquitetônico que era o sonho de um jovem arquiteto.
O que não pode ser questionado, porém, é a intensidade de sua vida - passional ao extremo, Beethoven maltratava algumas pessoas, como o jovem arquiteto, com o mesmo vigor com amava outras, como o sobrinho Karl, ignorando a prepotência deste e fingindo não saber ser Karl o responsável pelos furtos ocorridos em sua casa. Não se está dizendo que esta indiferença seja a forma correta de se amar alguém - o filme apenas revela que era assim que Beethoven, o homem, demonstrava seu amor. E não deixa de ser coerente com a inibição de amar que o compositor, no filme, visivelmente apresenta.
Imperfeito como qualquer ser humano, o maestro (como muitos no filme o chamam, às vezes até mesmo de forma jocosa), entretando, possuía tamanho dom para a música que a criação desta acabava por superar todos os erros que Beethoven cometia enquanto pessoa. E outro acerto do filme é o de concentrar sua trama através do ambiente de trabalho e do processo de criação do compositor.
O Segredo de Beethoven é narrado do ponto de vista de Anna Holtz (
Diane Kruger), uma jovem copista que, na fase final da vida do compositor, consegue um emprego com o já famoso maestro e passa a trabalhar diariamente com ele.
Em uma época em que não havia fotocópias, nem o serviço gráfico não tinha as facilidades de que atualmente se desfruta, copistas eram profissionais extremamente valiosos - eram as pessoas que copiavam manualmente os livros (ou, no caso, as partituras), página a página, linha a linha, para criar cada edição ou, no caso, as diversas unidades de partitura que estariam, na apresentação da orquestra, à frente de cada músico.
Quando Anna vai trabalhar com Beethoven, ele está, então, preparando nada menos que a Nona Sinfonia. Após as antipatias iniciais, logo surge uma certa afinidade entre mestre e discípula (Anna veio do interior da Alemanha sonhando em se tornar uma grande cantora lírica), que acaba por se converter em amor platônico. E, apesar de se propor ser uma biografia dos últimos anos da vida e da carreira de Beethoven, o filme incursiona pela ficção - ao sugerir que Anna Holtz tenha influenciado, parcialmente, a criação da Nona
Sinfonia e ao mostrar, pode-se até dizer que descaradamente, o maestro regendo a primeira apresentação de sua Nona Sinfonia - o que jamais aconteceu, pois Beethoven já estava, então, dominado pela surdez.

De qualquer forma, mesmo sendo uma cena ficcional, não deixa de ser comovente ver, no filme, o maestro regendo a obra que se tornaria a maior e mais famosa de sua vitoriosa carreira. Tratando-se de alguém cujo brilhantismo e dom para a música tanto acrescentou à humanidade, a visão de Beethoven regendo a Nona Sinfonia funciona como uma celebração à vida, a vida que Beethoven tanto amou e durante a qual tanto trabalhou para oferecer ao mundo algumas das mais belas peças de toda a História da Música, da Arte e da Humanidade.