Xuxa em dose dupla não convence

A idéia original para o roteiro de
Xuxa Gêmeas não é das piores e até poderia resultar em um bom filme, não fosse a sucessão de equívocos que sempre marca esse tipo de produção. A começar pelo formato de comédia, transportado das noites de sábado na TV para a tela do cinema. Alguns produtores e diretores ainda não perceberam que, na teoria, TV e cinema são coisas parecidas, mas, na prática, são coisas bem diferentes.
Jorge Fernando é de fato um grande diretor comediante na TV Globo, mas ainda precisa percorrer um grande caminho para ser um bom diretor de cinema. Não se faz um filme de sucesso apenas levando para a tela um elenco de comediantes consagrado na TV, mas pouco expressivo na telona.
Xuxa Meneghel foi corajosa ao encarar o desafio de interpretar duas personagens antagonistas no mesmo filme. No entanto, a "rainha dos baixinhos", tão boa e amorosa em todos os seus filmes, sentiu-se pouco à vontade no papel de vilã. Fato que ela mesma admitiu em entrevista coletiva realizada no último sábado (08) em São Paulo.

A atuação, como mocinha e vilã, no mesmo filme, não chega a decepcionar. Mas fica claro que foi um incômodo para a apresentadora ter de vestir a carapuça de má, o que prejudicou seu desempenho. Xuxa está muito melhor no filme como a artista circense Mel Montiel (Xuxa boa) do que atuando como a perua executiva Elizabeth Dourado (Xuxa má).
O problema é que nesse tipo de filme, onde o bem sempre luta contra o mal (e sempre vence), uma vilã com presença de espírito faz muita falta. Jenifer, a personagem da excelente
Maria Clara Gueiros, cumpre melhor o papel de vilã do que a personagem Elizabeth Dourado, interpretada por Xuxa.
Há indícios no filme de que Xuxa tenha se inspirado na malvada da vez do cinema para interpretar a vilã Elizabeth. Qualquer semelhança entre a madame Dourado e Miranda Priestly (
Meryl Streep) em
O Diabo veste Prada não é mera coincidência. Porém, Xuxa deveria ter buscado inspiração na atuação da gloriosa
Bette Davis, no filme
Alguém morreu no meu lugar, de 1964. Nesse clássico, Davis interpreta brilhantemente duas irmãs gêmeas com personalidades bem distintas.

Como já foi assinalado, do roteiro assinado por
Patricya Travassos poderia sair um bom filme. Porém, Xuxa Gêmeas peca pelo elenco, pela direção e pela realização. Além disso, Xuxa atua todo o tempo querendo imprimir ao filme a sua marca pessoal, bem como seus valores de mãe e apresentadora de programas infantis. Talvez o gênero comédia não seja o mais adequado para a difusão de discursos sobre ética, moral e comportamento para as crianças.
O mínimo que se pode esperar de uma comédia, seja para crianças ou para adultos, é diversão. Mas o novo longa-metragem da Xuxa chega a ser enfadonho, mesmo nos momentos em que pretendia ser engraçado. É incompreensível um filme que se propõe a resgatar a importância cultural e social do circo, entretenimento cada vez mais distante do universo das crianças de hoje, falhar nesse ponto.